- O Astolfo faz isso?
- Pode ter certeza que faz sim.
- Mas quem te contou?
- Ora, tá na boca do povo.
- Eu sabia que o Astolfo era pão duro, mas assim já é demais.
Pois é, o Astolfo em questão é um comerciante bem sucedido de uma destas simpáticas cidades do interior mineiro. Sovina ao extremo, já estava recebendo reclamações do Padre Alaor por não cumprir com a sua obrigação religiosa, que era pagar o dízimo. A cidade inteira comentava isso, mas o fulano não estava nem aí, e ainda por cima tinha a cara de pau de dizer a todo mundo que Deus não estava precisando do seu dinheiro.
- Tudo bem que o Astolfo é um tremendo mão de vaca, mas, venhamos e convenhamos, é uma boa companhia.
- Concordo, mas peraí, tomar cerveja quente e exigir desconto só porque o bar não gastou energia elétrica para gelar a dita é muito ridículo, para não dizer constrangedor.
- Pior é quando ele pede um quinto de porção de batata-frita e exige desconto porque não usou sal.
- Lembram quando ele chegou lá no bar do Marola e perguntou pelo preço de um cafezinho? Aí o cara respondeu e ele emendou perguntando pelo preço de duas colherinhas de açúcar refinado. O atendente disse que o açúcar era de graça. E não é que ele teve a petulância de pedir cinco quilos para levar?
Assim é o Astolfo. E desse jeito, com todos os elogios pão-durinos à sua pessoa, era respeitado na cidade como comerciante de sucesso e que não explorava a clientela. Mas o Padre Alaor não estava satisfeito por ele, um homem de muitas posses, não pagar o dízimo. E ficava revoltado com a desculpa do sovina, quando dizia que Deus não estava precisando do seu dinheiro. Toda vez que o Padre lhe inquiria sobre o assunto a resposta era a mesma: “Deus não está querendo o meu dinheiro”. Até que chegou um dia em que Padre Alaor resolveu dar um basta nisso e, literalmente, enquadrou o homem. No escritório da paróquia, o papo foi duro.
- Meu caro Astolfo, desculpe a sinceridade, mas que negócio é esse de dizer que Deus não está precisando do seu dinheiro? Quero tudo bem explicadinho.
- Mas, Padre, é a mais pura verdade.
- Onde já se viu uma coisa dessa? Como é que você pode saber que Deus não precisa do seu dinheiro? Por um acaso você está conversando com Ele?
- Não é nada disso, Padre. Quem sou eu para conversar com Deus. O negócio é que Ele deixa claro e evidente para mim que não precisa do meu dinheiro.
- Pelo amor de Deus, Astolfo, pare com esta brincadeira. Vamos lá que Deus não precise, e isto é mais do óbvio, mas a igreja precisa, e muito.
- Padre, pelo que aprendi a gente paga o dízimo a Deus, e aí Deus doa este dinheiro para a igreja.
- Santa mãe misericórdia, como pode um verdadeiro tapado que nem você ter ficado rico assim.
- Padre, que é isso, o Sr. está me ofendendo.
- Desculpe, Astolfo. Agora, de uma vez por todas, diga lá e esclareça finalmente como você sabe que Deus não está precisando do seu dinheiro.
- É simples. Todo último dia de cada mês eu pego cinco mil reais em notas de cem. Seguro firme na mão e, ajoelhado, rezo a Deus e ofereço o dízimo a Ele com a maior satisfação do mundo. Aí me levanto, jogo todo o dinheiro para o alto e digo: “pegue, Deus, é todo seu!” Acontece, Padre, que eu faço isso há mais de dez anos, e nunca, nunquinha mesmo, Deus quis pegar um único centavo que fosse. E então, Padre, agora finalmente o Sr. concorda comigo que Deus não quer o meu dinheiro?
Essa foi muito forte para o Padre Alaor, que despediu o prezado Astolfo e nunca mais lhe cobrou o dízimo. Ele sabia que nunca, jamais e em tempo algum conseguiria arrancar um único centavinho do sovina comerciante.