LAGARTIXA SATÂNICA DE CAUDA DE FOLHA

A ilha de Madagascar - país africano situado ao largo da costa de Moçambique (da qual está separado pelo Canal de Moçambique) - é uma terra de montanhas enevoadas, florestas tropicais, desertos espinhosos e lar de animais selvagens estranhos, mais do que é encontrado em nenhum outro lugar na Terra.

 

A fauna diversificada e rara dessa região incrível inclui sapos cuja cor varia do marrom ao amarelo brilhante; vespas que arrancam girinos de árvores, peixes que nadam de cabeça para baixo e o menor camaleão do mundo. Além deles, um réptil batizado com o nome científico de Uroplatus phantasticus, mas popularmente conhecido como lagartixa satânica de cauda de folha, denominação que recebeu por ter chifrinhos na cabeça, e em alguns casos, olhos avermelhados, o que, para muitos, faz lembrar a figura de Satanás, o espírito do mal.

 

A lagartixa satânica, só encontrada na ilha de Madagascar, pertence à família Gekkonidae (geconídeos), que tem mais de 2.000 diferentes espécies espalhadas pelo mundo inteiro. Entre elas os répteis escamados conhecidos como lagartos, onde se incluem as lagartixas (no Brasil), ou gecos (em Portugal). Esse grupo é originário da África, mas os que dele fazem parte são encontrados em todas as zonas temperadas e quentes do mundo, sendo muito importantes para o meio ambiente porque, como insetívoros, funcionam como "controladores" de pragas domésticas. Seus principais predadores são as serpentes(cobras) e os gatos domésticos.

 

Por ser mestre em disfarces, sua aparência pode se tornar igual à de uma folha seca das árvores onde habitualmente se empoleira, o que lhe permite misturar-se com facilidade ao ambiente que a rodeia. E com isso se torna praticamente imperceptível para olhos menos atentos. A ilustração acima mostra que essa variedade de réptil pode se camuflar tão bem que, realmente, acaba se tornando parecida com uma folha seca em cima de uma árvore, no início do outono.

 

Com corpo medindo entre 7,5 e 10 centímetros de comprimento, inclusive a cauda, a lagartixa diabólica dorme achatada contra os ramos das árvores, mantendo a cabeça apontando para baixo e ajustando a coloração do corpo ao ambiente em que se encontra. Por esse motivo ela pode ser vista quase sempre em tom marrom mais claro ou cinza, que pode se transformar, de forma surpreendente, em amarelo, verde, laranja e rosa, dependendo do momento ou do local em que esteja.

 

Perfeitamente adaptada à vida em uma floresta primária, ela sai somente à noite para caçar os insetos (especialmente grilos e mariposas) que constituem a base de sua alimentação. Durante o dia permanece inativa, movendo-se apenas quando perturbada. Nesses momentos, as de maior tamanho reagem escancarando a boca colorida e emitindo um assobio relativamente alto, ao mesmo tempo em que  erguem a cauda e a mantêm ereta. Ovíparas, as fêmeas da espécie colocam, em cada postura, dois ovos esféricos que permanecem ocultos por camadas de folhas mortas durante períodos que variam de 60 a 70 dias, quando então eclodem.

 

A lagartixa satânica de cauda de folha foi descrita pela primeira vez em 1888. Quem o fez foi George Albert Boulenger (1858-1937), um naturalista belga que se dedicou ao estudo de répteis anfíbios e peixes. O nome dado à nova espécie animal – Uroplatus - é uma latinização de duas palavras gregas, mas o complemento - phantasticus -, que é de origem latina - e que em português pode ser traduzida como imaginário, ou incrível -, pretendia ressaltar o aspecto incomum do pequeno réptil. Algo que só existe na imaginação das pessoas, ou em suas fantasias.

 

Esse réptil noturno não tem pálpebras. Seus olhos, suficientemente grandes, são cobertos por uma membrana transparente, e por isso ele usa sua longa língua móvel para limpar toda a poeira ou detritos que nela se deposite.. A lagartixa satânica é especialista em evitar predadores, não só através de sua mímica incrível, como também pela variedade de comportamentos. Ao caminhar à noite pela floresta úmida, ela usa as fortes garras curvas que possui e, principalmente, a incrível capacidade de aderência existente em suas patas São elas que lhe permitem, inclusive, andar em qualquer posição nos galhos mais altos, subir e descer por eles, sem correr qualquer risco de queda. Sua sobrevivência está intrinsecamente ligada às florestas de Madagascar, especialmente a Tsaratanana Strict Nature Reserve, o Marojejy Parque Nacional e a Reserva Especial Anjanaharibe, que são áreas protegidas.

 

Apesar disso, a espécie corre sério risco de extinção devido à caça que lhes movem os que vivem de sua venda para colecionadores. Além disso, estudos sugerem que seus exemplares só sobrevivem em ambiente específico, não tolerando a degradação de seu habitat natural. O que os torna muito vulneráveis aos impactos provocados por essa destruição.

 

O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) inclui todas as espécies Uroplatus na sua lista das dez espécies de animais silvestres que são “capturados e vendidos em taxas alarmantes para o comércio internacional". No caso específico das lagartixas satânicas, isso acontece porque em muitos lugares elas são consideradas como animais de estimação muito populares.