CARRO DE BOI

Rústico, modesto, vagaroso, o carro de boi foi, sem dúvida alguma, um dos fatores que concorreram para o progresso rural do Brasil. Primeiro veículo de transporte usado no país, ele ainda pode ser encontrado em pequenas fazendas de regiões desprovidas de boas estradas de rodagem que permitam a circulação dos velozes caminhões da atualidade. Apesar de sua morosidade característica, o carro de boi continua resistindo aos novos tempos, sempre muito útil no desempenho de sua missão multissecular de transportar o que precisa ser levado de um lugar para outro.
Antigamente essa circulação era bem maior, pois chegava às vilas e povoados varando sertões e cortando os "gerais" das capitanias, províncias e estados. Isso porque, para se deslocar, ele mesmo fazia os seus caminhos, “ora rolando no campo limpo, ora aproveitando a picada da floresta espessa”. E como até hoje continua enfrentando qualquer tipo de terreno, transpondo obstáculos naturais por caminhos impraticáveis a outras espécies de veículos, o carro de boi continua sendo um meio de transporte eminentemente prático, embora fadado ao desaparecimento.
Esse veículo de tração animal chegou ao Brasil com os portugueses, na época do descobrimento, e salvo algumas pequenas alterações de caráter regional, continua tendo o mesmo modelo usado naqueles tempos. Na descrição de Lúcio Soares de Castro, em “O Carro de Boi” (www.lucianoqueiroz.com/carro de boi.htm), ele é todo feito de madeira e tem duas peças principais: o estrado e o conjunto roda-eixo. O estrado retangular, gradeado ou de pranchas de madeira justapostas, apresenta na parte dianteira um varal ou lança - o "cabeçalho". Em cada borda do estrado são fincadas varas roliças - os "fueiros" - que amparam lateralmente a carga.
As duas rodas, geralmente maciças, de madeira rija, altas e pesadas, são protegidas por um aro de ferro quando rolam em terreno pedregoso. Elas ficam encaixadas no eixo-móvel que gira entre os “cocões”, quatro peças de madeira embutidas no estrado (duas de cada lado) e apoiadas sobre o eixo pelos "calços". Entre o calço e o eixo é colocado um indispensável suplemento - a "cantadeira" - untada com uma pasta de sebo e pó de carvão, para fazer o carro gemer quando esta é atritada durante a marcha. “Carro que não canta não presta!”, garantem os entendidos, e por isso o seu gemido característico, ligeiramente modulado, constitui motivo de orgulho para o carreiro.
A força de tração do carro, explica Lúcio de Castro, é fornecida por bovinos dispostos dois a dois - as "juntas" -, cujo número varia conforme o peso da carga, a natureza do solo e topografia da região. Essas juntas são unidas pelas "cangas", ligadas ao cabeçalho por varais articulados - os "cambões". Tiras de couro - as "tamboeiras" - ligam os cambões entre si. A canga repousa na nuca dos bois, prendendo-os pelo pescoço, ficando este entre dois bastões perpendiculares, atados ou embutidos na canga - os "canzis" - cujas pontas inferiores são ligadas por uma fita de couro - a "brocha" - passada pela barbela do animal. Atrelada ao cabeçalho fica a "junta-mestra", ou de "pé-de-carro", ou "junta-de-coice", a mais importante de todas, pois, além de abrir a marcha, sustenta grande parte do peso do carro. A que fica logo à frente é chamada "junta-forte", e as outras, "juntas-de-frente".
Apesar de forte e musculoso, o boi de carro é extremamente dócil. Seus condutores são dois: o carreiro e o candieiro. O primeiro caminha ao lado do carro, mantendo o ritmo vagaroso da andadura dos bois, ora gritando pelos seus nomes, ora picando-os com o "ferrão", ou aguilhada, uma ponta de ferro presa á extremidade de comprida vara que ele traz constantemente ao ombro. O segundo é geralmente um menino ou rapazinho, que também munido de ferrão vai à frente da junta dianteira ou "da-guia", dando a direção da marcha.
Embora seja destinado ao transporte de mercadorias, o carro de boi também conduz pessoas. Enquanto nas longas viagens pelo interior os homens vencem as distâncias utilizando-se do cavalo ou do burro, esse tipo de veículo conduz enfermos, velhos, senhoras e crianças, mas devidamente guarnecido com uma cobertura de esteira ou de lona, a fim de resguardar os passageiros contra as intempéries.
O carro de boi e o carreiro enriquecem o nosso folclore com histórias interessantes e variados temas para pitorescas e expressivas toadas sertanejas. Uma delas é a composta por Tonico e Tinoco, integrantes de famosa dupla sertaneja, que junto a Anacleto Rosas Jr compuseram a canção “Boi de Carro”, na qual é traçado um paralelo entre o boi já velho e o trabalhador de idade avançada.
Em www.widesoft.com.br/users/pcastro1/carrodeboi.htm o leitor encontra a melhor definição sobre o “cantar” do carro de boi (e tudo o que se refere a ele). Diz esse texto que:
Quem ouviu, ouviu. Quem não ouviu, não ouve mais. Parece que onde chegam as técnicas e tecnologias de fazer tudo mais depressa, como se o mundo fosse acabar ontem, a poesia acaba desmantelada. Porque o carro de boi não canta por boniteza, somente. Canta por precisão. A vida do carro está na cantiga. Carro de boi, de pau, que não canta, não é carro. É tranqueira com rodas, coisa morta, desservida de encantamento. Porque se há muita carga e o carro canta de gaita, a gente mata os bois. Eles ficam destrambelhados, se estouram no esforço. Mas se o carro canta de baixão, vão lá naquele passo deles, na mesmice de boi deles, em paz com Deus e com o mundo. E se é trabalho corriqueiro, normal, então é bom o carro cantar de pombo, nem para cima, nem para baixo. Pois, estes são os três tons de cantar dos carros: pombo, que é médio, macio. Gaita, fino e alto. E baixão, que é grosso e grave. Carro cantador não vareia, não descontinua nem destoa nem mesmo nas bacadas mais brutas, ou manobras de vai-e-vem. Léguas longe, quem sabe e conhece percebe a alma do carro chegando muito antes que se possa pôr os olhos nele. Porque o canto do carro é isso: é sua alma, é a alma do carreiro, é o jeito que Deus deu para enfeitar a existência dos bois e dos carreiros pelos caminhos do sertão e da vida.