1879 - REVOLTA DO VINTÉM, A - Rio de Janeiro

1879 - REVOLTA DO VINTÉM, A

Rio de Janeiro

 

Em 1878 o gabinete liberal de João Lins Vieira Casansão de Sinimbu (agraciado em 16/05/1888 com o título de Visconde de Sinimbu) subira ao poder. Mas gerava grande insatisfação popular em virtude da política fiscal adotada por seu ministro da Fazenda, Afonso Celso de Assis Figueiredo (futuro visconde de Ouro Preto), que para contornar as dificuldades financeiras provocadas pela seca de 1877, no norte do país, aumentara os impostos já existentes e criara alguns novos, entre eles a taxa de vinte réis (ou um vintém) sobre o valor das passagens no transporte urbano.

 

Em 1870 a cidade do Rio de Janeiro tinha 170 mil habitantes, muitos deles usando como meio de transporte os bondes das quatro companhias existentes: a Botanical Garden Co., que saía da rua Gonçalves Dias, no centro, e ia à zona sul; a Cia. de São Cristóvão, que fazia a zona norte e com ponto final no Largo de São Francisco; a Ferro-Carril de Vila Isabel, que partia da Praça Tiradentes; e a Cia. de Carris Urbanos, que atendia o centro e a zona portuária.   

 

Cada carro, puxado por burros e correndo sobre trilhos, levava 30 passageiros, o que dava ao bonde a característica de transporte de massa. Em 1879, muitos dos vinte milhões de seus usuários anuais reprovaram a nova taxa e se voltaram contra o governo, o que serviu de estopim para a revolta popular que logo ganhou as ruas. Cinco mil manifestantes liderados pelo medico e jornalista José Lopes da Silva Trovão (na ilustração acima) ou simplesmente Lopes Trovão (1848-1925) reuniram-se, então, diante do palácio imperial, no Campo de São Cristóvão, pretendendo entregar ao imperador D.Pedro II uma petição solicitando a suspensão da cobrança do vintém. Mas como a polícia não permitiu que se aproximassem da residência oficial, os manifestantes se retiraram, apesar do imperador ter mandado avisar que negociaria com uma comissão dos reclamantes.

 

Na seqüência dos acontecimentos, Lopes Trovão e seus companheiros republicanos divulgaram manifesto em que sugeriam ao imperador encontrar-se com o povo. Além disso, em seu jornal “A Gazeta da Noite”, e também em panfletos distribuídos pela cidade, ele recomendava à população que boicotasse o pagamento da taxa, incitando-a à prática de atos violentos como o de arrancar os trilhos dos bondes. E para complementar essas ações, outra manifestação foi marcada para o dia 1º de janeiro, data em que a nova taxa passaria a ser cobrada, a ser realizada no Largo do Paço, hoje Praça 15 de Novembro, no centro da cidade.


Às doze horas da data marcada, a multidão que se encontrava reunida no local determinado por Lopes Trovão dava sinais de grande inquietação. Talvez por isso, e mesmo sem obedecer a um comando determinado, ela começou a mover-se pelas ruas do centro em direção ao Largo de São Francisco, ponto final de várias linhas de bonde. Apesar do apelo de Lopes Trovão para que os manifestantes fossem embora para casa, eles continuaram avançando e concentrando-se nos arredores da Rua Uruguaiana. O delegado que comandava a força policial pediu reforços ao Exército, mas antes que esta ajuda chegasse ele ordenou a seus comandados que dispersassem a multidão a cacetadas.

 

Relato sobre o tumulto que então aconteceu, feito pela Revista da História, revela que a um grito de “Fora o vintém” os manifestantes iniciaram uma reação frenética e violenta, espancando condutores, esfaqueando as mulas, virando bondes e arrancando trilhos ao longo da Rua Uruguaiana. Dois pelotões do Exército ocuparam o Largo de São Francisco, postando-se parte da tropa diante da Escola Politécnica, atual prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

 

O povo, que só detestava a polícia, aplaudiu a tropa, mas alguns mais ousados passaram a arrancar paralelepípedos e atirá-los contra os soldados. Por infelicidade, um deles atingiu o comandante da tropa, tenente-coronel Antônio Enéias Gustavo Galvão, primo de Deodoro da Fonseca, militar que uma década depois se tornaria o primeiro presidente do Brasil. O oficial descontrolou-se e ordenou fogo contra a multidão.

 

As estatísticas sobre esse incidente, ainda segundo a revista, são imprecisas. Falou-se de 15 a 20 feridos, e em 3 a 10 mortos. A multidão dispersou-se, e salvo pequenos distúrbios nos três dias seguintes, o motim do vintém chegara ao fim. A cobrança da taxa passou a ser aleatória, e as próprias companhias de bondes passaram a pedir ao governo que a revogasse. Desmoralizado, o ministério Sinumbu caiu em 28 de março, e o que o substituiu, em um de deus primeiros atos oficiais, cuidou de revogar o desastrado tributo.

 

Mesmo não tendo sido um movimento rebelde de caráter republicano, a Revolta do Vintém serviu como indício das mudanças sociais, políticas e econômicas que marcariam o final do governo de Dom Pedro II. Ele foi, na verdade, uma grande explosão social detonada por um pobre vintém.

 

Fonte: Revista de História