COM QUATRO PEDRAS NA MÃO
A funda, uma das mais antigas e primitivas armas feitas pelo homem, era usada por diversos povos da Antiguidade, tais como gregos e hebreus. Destes últimos, é célebre a passagem contida no Antigo Testamento, em que David derrota o gigante Golias utilizando-se de uma delas.
Nos antigos exércitos, os fundibulários, ou funditores (ilustração), formavam uma importante linha de ataque nas batalhas, geralmente por detrás dos lanceiros e antes dos besteiros e seteiros. Eram soldados que treinavam a pontaria para o arremesso de pedras a longa distância, provocando com elas tantas baixas quanto as flechas.
Sobre eles, o escritor romano Publius FlaviusVegécio Renatus, ou simplesmente Vegécio, registrou que "Os recrutas serão ensinados na arte de lançar pedras com ambas as mãos e com a funda. Dizem que os habitantes das Ilhas Baleares são os inventores da funda, e de as administrar com surpreendente destreza, o que se deve à forma como educam suas crianças. As crianças não eram permitidas ter a comida antes que a tivessem golpeado com a funda. Os soldados, mesmo usando suas armaduras defensivas, são mais duramente afetados com as pedras redondas lançadas pelas fundas que por todas as setas do inimigo. As pedras matam, sem mutilar o corpo, provocando uma mortal contusão em que não há perda de sangue. É universalmente sabido que os antigos usavam fundíbulos em todas as suas batalhas. È imprescindível instruir todas as tropas, sem exceção, neste exercício, pois a funda não pode ser tida como algo difícil, e é de grande utilidade, especialmente quando devem ocupar lugares pedregosos, ou defender uma montanha ou elevação, e ainda proceder à defesa de um castelo ou cidade."
Para recolher fruta ou abater animais, repelir ou executar alguém, ferir adversários usando as mãos livres ou com uma funda, a técnica de atirar pedras provavelmente nasceu com os caçadores do Paleolítico, período da pré-história conhecido como Idade da Pedra Lascada que vai de 2,5 milhões a.C. a 10.000 a.C.. Atirar pedras, portanto, é um dos mais antigos processos usados pelo homem para caçar, guerrear e até mesmo punir malfeitores (ilustração ao lado). O apedrejamento, apesar de muito antigo, é ainda, em alguns países orientais, uma forma de execução de condenados à morte, consistindo em que os assistentes lancem pedras contra o réu, até matá-lo. Como uma pessoa pode suportar golpes fortes sem perder a consciência, o atiramento de pedras em alguém pode produzir-lhe uma morte muito lenta. Existe uma passagem do Novo Testamento onde Jesus teria rejeitado o apedrejamento de uma mulher que cometera em adultério. Na passagem conhecida como a Mulher Adúltera (São João, 8:1 a 11), lê-se (de 4 a 7) que os escribas levaram a Jesus uma mulher apanhada em adultério. “Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: ‘Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. Moisés mandou-nos na Lei, que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?’. Perguntara, isso a fim de pô-lo à prova e poderem acusá-lo. Jesus, porém, se inclinou para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como eles insistissem, ergueu-se e disse-lhes: ‘Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”..
As pedras integraram a atividade militar até o século 16, quando surgiu a primeira arma de fogo individual com seu poder devastador (o mosquete). Apesar disso, ainda hoje vemos o arremesso de pedras como uma forma defensiva e ofensiva usada em muitas partes do mundo por crianças, adultos e até mesmo multidões enfurecidas. Certamente por causa disso a expressão “com quatro pedras na mão”, aplicável à forma inamistosa, grosseira, beligerante e mal-educada com que determinadas pessoas tratam os que não lhe fazem a vontade, ou as desagradam, permanece viva e sempre atual.
No Brasil, o apedrejamento de seres humanos tem sido noticiado pelos jornais com certa constância. No dia 03 de novembro, jornais online publicaram que naquela madrugada (1:30h), na região metropolitana de João Pessoa um homem com aproximadamente 40 anos de idade, fora assassinado a pedradas por dois rapazes, um de 19 e outro de 17 anos, porque estava devendo na “boca, segundo informaram os criminosos.
Ainda na madrugada do mesmo dia (2:20h), uma mulher de 29 anos foi presa em São Joaquim de Bicas, região metropolitana de Belo Horizonte, porque agredia com mordidas e pedradas seus dois filhos pequenos, de 7 e 9 anos. A Polícia Militar levou mãe e filhos à unidade de pronto atendimento do município, onde a mulher tentou repetir a agressão contra os filhos e policiais.
Também na madrugada do dia 3, na orla marítima de Maceió (bairro Pajuçara), um morador de rua identificado apenas como Josafá, de 21 anos, foi atingido por várias pedradas na cabeça, enquanto dormia em um vão de porta. Seu quadro clínico é grave, pois ele sofreu trauma no crânio e face. Ninguém sabe ainda o que motivou a tentativa do assassinato.