BATER AS BOTAS

BATER AS BOTAS

 

Ninguém pode afirmar com certeza quando foi feito o primeiro par de sapatos, mas a presunção é a de que o homem primitivo, num dado momento, tenha percebido que precisava proteger os pés do frio intenso e da aspereza do solo em que caminhava. Para isso, ele usou a pele de algum animal, embrulhando com ela seus dois “pisantes” tão maltratados pelas duras condições da vida que levava.

 

Mais adiante, depois que a agulha de costurar foi inventada, nossos ancestrais passaram a usá-la para juntar pedaços de pele dos animais e ajustá-los ao tamanho exato de seus pés. Daí para frente, a técnica da produção de calçados foi sendo aperfeiçoada pouco a pouco, até chegar ao sapato moderno que é, portanto, o resultado de uma longa evolução dessa peça do vestuário através da história da humanidade.

 

Dela fazem parte os borzeguins, que precederam as botas. Entre os romanos, os senadores preferiam os de couro preto para se distinguirem dos patrícios, que usavam os de couro vermelho. Os bispos e prelados da Idade Média também o conheceram, mas hoje ele é simplesmente uma botina cujo cano se fecha por meio de cordões. Já o coturno é um calçado militar atado na frente, que sobe até a metade da canela. Parente do borzeguim, ele variava, na Antigüidade, segundo o uso ou a finalidade a que era destinado.

 

Com relação às botas, os baixos-relevos antigos, especialmente os assírios, mostram guerreiros usando um tipo primitivo desses calçados de couro, que chegavam até à parte média da perna. Também em diversos romances dos séculos 12 e 13 são feitas referências a botas especiais que muitas pessoas usavam para caçar ou para percorrer grandes distâncias. No século 15, as que eram usadas pelos nobres se tornaram tão apertadas que obrigavam o auxílio de criados para que os homens da Corte pudessem colocá-las e retira-las dos pés. Do século 19 em diante, o uso da botas se tornou coisa comum entre as pessoas de posição social elevada, mas finalmente acabou suplantado pelo dos sapatos comuns.

 

A frase “Bater as botas” é uma variante das tradicionais "Esticou as canelas", "Abotoou o paletó", "Partiu desta para melhor", “Foi morar no céu” e outras mais de sentido assemelhado, servindo para indicar que o sujeito morreu. Mas segundo alguns estudiosos da língua portuguesa, o curioso é que essa expressão deve ser usada apenas em relação ao morto adulto, do sexo masculino, e que tenha tido o costume de andar de botas ou ao menos calçado. Sendo assim, portanto, quem bate as botas ao morrer é alguém de certas posses ou ao menos remediado, pois os outros mortos apenas esticam as canelas ou partem desta para melhor. Neste último caso, devem partir com estilo, sendo isso possível; pois a frase deixa a entender que os que se foram para uma outra vida devem encontrar nessa nova edição que lhes foi dada, condições mais favoráveis do que as desfrutadas por eles enquanto estiveram entre nós. Apesar de que, dependendo da herança deixada por qualquer um deles, sua partida terá sido bem mais favorável para quem ficou nesse nosso mundo de meu Deus.


Apesar do “bater as botas” ser algo imprevisível, já que pode acontecer a qualquer momento na vida de cada um, sem que ninguém consiga deter a roda do destino, não custa nada tentar evitar determinadas situações que podem levar o cidadão a esse indesejado desfecho. Afinal de contas, como a esperança é sempre a esperança, algumas das frases abaixo, geralmente as últimas proferidas por gente descuidada em relação ao “bater as botas”, justificam o motivo da recomendação:

 

- Adoro essas ruas, pois são muito tranqüilas.

 

- Ah, não se preocupe, o que não mata, engorda.

 

- Aqui é o piloto. Vamos passar por uma ligeira turbulência.

 

- Atravessa correndo que dá.

 

- Bota em ponto morto para economizar gasolina.

 

- Confie em mim.

 

- Deixa comigo.

 

- Fica tranqüilo que este alicate é isolado.

 

- Pode mexer. Esse meu Pitbull é mansinho, mansinho.

 

- Sabe qual a chance de isso acontecer? Uma em um milhão.

 

- Tá olhando o que negão? Vai encarar?

 

- Tem certeza que não tem perigo?

 

- Uhmmm... Você está sentindo o cheiro de gás também?

 

- Vamos, atira se for homem!

 

- Vamos lá que não tem erro.

 

- Você é grande, mas é um só!

 

Obs: Fonte: Sapato, do mesmo autor, publicado no arquivo Invenções, deste site.