ÁGUAS SUBTERRÂNEAS
Águas subterrâneas são aquelas que preenchem os espaços existentes nas rochas porosas e permeáveis do subsolo, ou mesmo em rochas não porosas, mas fraturadas, que geram um efeito físico similar ao da permeabilidade. Esses depósitos são chamados de aqüíferos. Seu volume mundial é calculado em cerca de 100 vezes mais do que o das águas doces superficiais disponíveis (rios, lagos, pântanos, água atmosférica e umidade do solo), desempenhando papel importante na alimentação de rios e lagos, e no abastecimento das cidades.
Ao atingir a superfície da Terra a água da chuva pode ter vários destinos. Uma parte se infiltra e vai alimentar o depósito subterrâneo, mas quando o solo atinge o ponto de saturação e fica encharcado, a água passa a escorrer sobre a superfície até chegar aos rios, córregos e ribeirões. Dependendo, porém, da temperatura ambiente, certa quantidade dela evapora e volta à atmosfera na forma de vapor. Já nos países frios, ou em grandes altitudes, a água acumulada na superfície transforma-se em neve ou gelo, assim podendo ficar por muito tempo.
A infiltração de água no solo depende de muitos fatores. Um deles é a porosidade do terreno; outro, a cobertura vegetal que torna o solo mais permeável que o das áreas desmatadas; a topografia também é importante, pois declividades acentuadas fazem a água correr mais depressa, o que prejudica a infiltração; e por fim a intensidade das chuvas, uma vez que durante as precipitações finas e demoradas a água é absorvida pelo solo em maior quantidade.
Essa água infiltrada submete-se a duas forças fundamentais: a da gravidade e da capilaridade, esta um fenômeno físico resultante da interação entre as forças de coesão (união das moléculas da água) e adesão (união com outras moléculas). Como a força de adesão é mais forte do que a da gravidade que age sobre a água, esta ficará retida, quase imóvel, não atingindo zonas mais profundas. Esse fenômeno é muito utilizado pelas plantas no transporte de seiva bruta da raiz até às folhas.
O mapeamento e estudo dos aqüíferos brasileiros não são homogêneos, tanto que, por exemplo, os levantamentos sobre o Solimões e o Parecis são apenas iniciais. Há, também, reservatórios ainda a confirmar e até mesmo sem nome. Mas embora ainda não hajam dados finalizados, considera-se que existam 27 aqüíferos principais no país, entre os quais se destacam o Barreiras (ao longo de parte da costa); o Alter do Chão e o Solimões, na Amazônia; o Serra Grande, o Cabeças e o Poti-Piauí, no Piauí e Maranhão; o São Sebastião, na Bahia; o Açu, no Rio Grande do Norte; e o sistema aqüífero Guarani, que se estende do Centro-Oeste ao Sudeste e Sul.
O maior aqüífero brasileiro em extensão e volume de água (suas reservas potenciais calculadas são de 40 milhões de metros cúbicos de água) é o Sistema Guarani, com aproximadamente 1,200 milhão de quilômetros quadrados. Deles, 70% estão espalhados pelo subsolo de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, enquanto os 30% restantes encontram-se em territórios do Uruguai, Paraguai e da Argentina. Ele é interligado a outros dois sistemas aqüíferos que se sobrepõem a ele em áreas mais rasas do subsolo, que são o Aqüífero Bauru-Cauiá e o Aqüífero Serra Geral.
O Bauru-Caiuá, com área aproximada de 315 mil/km2, apresenta uma espessura média de 100 metros, que contêm água geralmente de boa qualidade. Devido ao baixo custo de captação, esses dois aqüíferos são intensamente explorados. Em 1999 já existiam mais de 16.000 poços tubulares, 2/3 dos quais captando o Aqüífero Bauru, de modo a garantir o abastecimento doméstico e parte das demandas de pequenas indústrias da região. Essa condição advém do fato dele ser um sistema livre, local e ocasionalmente freático, submetido a uma abundante recarga. Contudo, essa condição faz com que esse manancial seja potencialmente vulnerável aos agentes poluidores provenientes das atividades agroindustriais, principalmente.
Em 2010, pesquisadores das universidades federais do Para (UFPA) e do Ceará (UFC), divulgaram dados de um estudo preliminar no qual dimensionam o Aqüífero Alter do Chão (na ilustração acima), nos estados do Pará e Amazonas, com um volume de água que o situa entre os maiores do mundo. Com área de 437,5 mil quilômetros quadrados, ele teria uma espessura média de 545 metros, projetando reservas de um volume tão grande que, caso sejam confirmadas, alteraria todos os cálculos das reservas brasileiras estimadas atualmente em 112 trilhões de metros cúbicos.
Embora o Brasil não possua dados precisos sobre as características e a capacidade da maioria dos seus reservatórios de águas subterrâneas, sabe-se que elas são naturalmente melhor protegidas contra a contaminação do que as águas superficiais. O que não elimina, porém, o risco da poluição desses mananciais, cujos efeitos podem levar até mesmo alguns anos para que venham a ser devidamente identificados.