ALFAIATE VOADOR, O

ALFAIATE VOADOR, O

 

A esperança de voar acompanhou o homem durante séculos e séculos. No mundo ocidental, os primeiros projetos nesse sentido pertencem a Leonardo da Vinci (1452-1519), uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento. que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico, sendo ainda conhecido como o precursor da aviação e da balística.

 

Mas alguns séculos depois diversos outros inventores dedicaram tempo e atenção às máquinas de vôo mais pesadas do que o ar. Entre eles os ingleses George Carley (morto em 1857), William Henson (1805-1888), Francis Wenham (ainda vivo em 1866), e John Stringfellow (1799-1883), que chegaram a preparar modelos sumários desses aparelhos voadores.

 

Depois deles surgiram outros interessados em fazer o homem voar. Como o francês Clemente Ader (1841-1925), o inglês Hiram Steves Maxim (1840-1916), e o norte-americano Samuel Pierpont Langley (1834-1906). Em 17 de dezembro de 1903, quando os irmãos norte-americanos Wilbur (1867-1912) e Orville Wright (1871-1948) conseguiram realizar um vôo motorizado, iniciou-se, então, a verdadeira era da aviação com os mais pesados que o ar. Em 1906, coube ao brasileiro Alberto Santos Dumont a autoria do primeiro vôo motorizado e inteiramente comandado pelo piloto, que era ele próprio, oficialmente controlado por uma comissão especialmente designada pelo Aeroclube de Paris, que então integrava a autoridade internacional máxima na matéria, o que não acontecera com os Wright..

 

Paralelamente aos esforços desses homens, outros também alimentavam o desejo de percorrer os ares como os pássaros. Um deles era Franz Reichelt, ou François Reichelt, nascido na Áustria em 1879, alfaiate de profissão e inventor nas horas vagas. Ele havia criado um traje para voar ou flutuar levemente no espaço até chegar ao solo - tal como se consegue hoje com os pára-quedas modernos -, e já o havia experimentado em algumas oportunidades, inclusive na queda do quinto andar de um prédio. Mas como não conseguira repetir o mesmo sucesso em testes posteriores, Reichelt atribuiu os fracassos à falta de uma plataforma mais alta, razão pela qual pediu reiteradamente às autoridades responsáveis que lhe fosse dada a autorização necessária para usar a Torre Eiffel como plataforma de salto.

 

Essa autorização foi concedida no início de 1912. Porém, na manhã de 04 de fevereiro, quando Reichelt chegou à torre, os amigos presentes perceberam que ele mesmo se preparava para saltar da primeira plataforma (mostrada na ilustração acima), ao invés de usar um boneco, e por isso tentaram fazê-lo mudar de idéia, mas sem sucesso. Relatos contemporâneos dizem que para presenciar a façanha que ele tentou concretizar aos 33 anos de idade, Reichelt teria chamado “a cidade de Paris” para testemunhar o sucesso de sua invenção. Antes do salto, que ficaria registrado em vídeo, ele hesitou durante frações de segundo, mas tomou coragem e se lançou no espaço vazio. Pulou da torre, o traje que criara não funcionou, e assim ele perdeu sua jovem vida aos pés da torre de ferro.

 

Embora estivesse claro que a queda o havia matado, seu corpo foi levado para um hospital existente nas proximidades, onde os médicos o declararam oficialmente declarado morto. No dia seguinte os jornais contavam a história do inventor imprudente e comentavam sobre seu salto fatal mostrando muitas fotografias tiradas pelos profissionais da imprensa que ali haviam se reunido para documentar o experimento.

 

A vida do “alfaiate voador” foi contada em um curta-metragem feito em 1993 por Pablo Lopez Paredes, denominado “Le Tailleur Autrichien” (O Alfaiate Austríaco). Trechos do filme, inclusive com cenas da morte de Franz Reichelt, aparecem ainda no documentário “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, feito em 1998 por Marcelo Masagão.