1961 - CONDECORAÇÃO DE CHE GUEVARA

1961 – CONDECORAÇÃO DE CHE GUEVARA

 

Jânio Quadros tinha levado a UDN ao governo depois de muitas tentativas frustradas desde a redemocratização, em 1945. O próprio Carlos Lacerda, que com ele romperia mais tarde, foi o artífice da candidatura em 1960. Liderou sua vitória na Convenção Nacional da UDN, em oposição a um correligionário Juracy Magalhães, mas aos poucos foi sendo isolado nos círculos do poder, reagindo e adotando uma forte postura crítica. Falou pela Televisão, num sábado por mais de uma hora, centralizando suas críticas no encontro de Jânio com Che Guevara, condecorado no Planalto (em 20 de agosto de 1961). O fato foi explorado intensamente por Lacerda, que se considerava isolado por um governo desatento às suas reivindicações administrativas, governador que era da Guanabara. Boa parte da intervenção feita girou em torno da política externa de Jânio, a condecoração de Guevara e as surpresas que o Presidente oferecia em seus sete meses de governo.

 

Jânio Quadros surpreendeu com sua decisão, tomada no dia 17 de agosto de 1961, de condecorar Che Guevara. O decreto que alcançou repercussão tinha o seguinte teor: "O presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, na qualidade de Grão Mestre das ordens brasileiras e nos termos do Decreto 21610, de 4 de abril de 1933, resolve conferir a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, no grau de Grã-Cruz a S. Excelência, o Senhor Ernesto Che Guevara, ministro da Indústria de Cuba. Brasília, 18 de agosto de 1961. 140 da Independência e 73 da República”. Publicado no Diário Oficial o decreto não chegou a ser referendado por Afonso Arinos, chanceler da Ordem, o mesmo ocorrendo com outros atos na área do Itamaraty, assinados na véspera da renúncia.

 

Jânio autorizou o secretário de imprensa, Carlos Castelo Branco a divulgar a informação sobre a condecoração. As primeiras reações começaram logo a surgir, entre elas a do general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, que procurou o chefe da Casa Civil, Quintanilha Ribeiro, para alertá-lo sobre a repercussão desfavorável nas Forças Armadas, sobretudo porque Jânio determinara honras militares a Che Guevara. Guevara desembarcou às 23h35 minutos com sua comitiva de 45 pessoas. Jânio havia solicitado ao deputado José Sarney para ir também ao aeroporto, mas os desencontros de horários e atrasos impediram que parlamentar e seu grupo cumprissem o pedido... (Che Guevara concedendo entrevista)

 

No Brasília Palace Hotel, onde Guevara e assessores se instalaram, o aparato da segurança foi reforçado. O andar tinha sido isolado e o DOPS ocupava os apartamentos vizinhos. Os diplomatas do governo que foram ao encontro de Guevara para explicar-lhe a cerimônia só notaram uma certa surpresa de sua parte, quando disseram que haveria honras militares na solenidade. Os diplomatas acertaram com a comitiva que, às 6 horas da manhã, iriam buscá-lo, pois a solenidade estava fixada para as 7 horas.

 

Guevara chegou às 6h30min e depois da execução dos hinos, o ministro Macedo Soares e o Capitão Gesel Ferrari o conduziram para o terceiro andar, onde foi ao encontro de Jânio. Este fora informado momentos antes pelo chefe do Gabinete Militar, que Lacerda manifestava sua intenção de renunciar ao governo da Guanabara, em protesto, a fim de ir para as ruas "lutar como cidadão comum contra a comunização do Brasil pela política externa. Jânio recebeu a informação e não se perturbou. Estava interessado na chegada de Guevara e na solenidade, e já previa sua repercussão. "Che" foi recebido no gabinete presidencial com abraços. Quase 20 minutos após, as portas do gabinete presidencial se abriram e Jânio e Guevara seguiram para o Salão Verde.

 

Jânio foi o primeiro a falar: "Ministro Guevara, Vossa Excelência manifestou em várias oportunidades o desejo de estreitar relações econômicas e culturais com o governo e povo brasileiros. Esse é o nosso propósito também. E é a deliberação que assumimos no contato com o governo e povo cubanos. E para manifestar a Vossa Excelência, ao governo cubano e ao povo de Cuba, nosso apreço, nosso respeito, entregamos a Vossa Excelência esta alta condecoração do povo e governo brasileiros”.

 

Che Guevara agradeceu na mesma forma protocolar: “Senhor Presidente, Como revolucionário, estou profundamente honrado com esta distinção do povo e governo brasileiros. Porém, não posso considerá-la nunca como uma condecoração pessoal, mas como uma condecoração ao povo e à nossa revolução. E assim a comunicarei com as saudações desse povo que Vossa Excelência pessoalmente representa. E transmiti-la-ei com todo desejo de estreitar as nossas relações”.

 

Jânio colocou a faixa no uniforme de Guevara, abraçou-o e posou para fotos. Esta acabaria sendo a última solenidade de Jânio no Palácio do Planalto. Guevara retornou ao hotel e ao meio-dia desceu para almoçar com o prefeito de Brasília, Paulo de Tarso. Depois um sobrevôo com o prefeito para dar uma idéia de Brasília, seguiu logo para a base aérea, onde regressou às 14h45mim.

 

Enquanto isso, o governador Carlos Lacerda, na Guanabara, fazia um ato de desagravo e entregava as chaves da cidade aos dissidentes cubanos Manuel Antônio de Varona y Toledo, ex-primeiro-ministro cubano e Álvaro Diaz que se encontravam em campanha anticastrista por vários países sul-americanos.

 

O desentendimento entre Jânio e Lacerda cresceu depois da homenagem a Guevara. E as críticas cresceram de tom. Depois de uma longa intervenção de Lacerda pela TV no dia 24 de agosto, Jânio renunciaria no dia 25. A semana toda, no entanto, foi tensa no campo político, culminando com a decisão do Presidente. As relações entre Jânio e Lacerda já não vinham bem. O episódio de Che Guevara só deu mais munição para o governador da Guanabara. Tanto que no seu pronunciamento Lacerda foi direto ao ponto: "Só não podemos, só não queremos é que, em nome de um esquerdismo para fora, se faça o reacionarismo para dentro, através de uma ditadura disfarçada, que através de um reacionarismo para dentro, através de tal ou qual agrado a este ou aquele grupo econômico, se faça para fora o espetáculo de um país, o Brasil, que entra na órbita comunista no exato momento em que sai do seu livre espaço e deixa de ser uma estrela refulgente para ser triste satélite de um pseudoneutralismo. Talvez a Grã-Cruz do Cruzeiro do Sul que foi dada a Che Guevara sirva ao menos no seu peito, para esconder a mancha de sangue dos cubanos que ele matou. Por trás da condecoração dada ilegalmente a esse aventureiro internacional, a esse apátrida especialista em oprimir a pátria alheia, que coisas se escondem, que aventuras, que tramas da madrugada, que torvas conversas, que sinistras combinações!"


Carlos Fehlberg  - 15/08/2011 – em Política para Políticos