PURUSSAURUS BRASILIENSIS

PURUSSAURUS BRASILIENSIS

 

O Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal do Acre foi criado em 1983 com o objetivo de pesquisar e estudar o rico material fóssil presente nas formações geológicas que cobrem toda a Amazônia Ocidental. Hoje, esse departamento de pesquisa possui em seu acervo mais de 5.000 peças coletadas ao longo de rios e estradas que cortam o estado, desde o final da década de 1970. Entre elas o crânio de um grande jacaré batizado com o nome científico de Purussaurus brasiliensis.

 

Coletado pelos pesquisadores em 1986, próximo à cabeceira do rio Acre, a montante do município de Assis Brasil, o crânio mede 1,30 de comprimento, o que permitiu aos  paleontólogos a conclusão de que o animal deveria ter 12 metros de tamanho, não sendo afastada a possibilidade de que alguns deles poderiam ser maiores, chegando até aos 18 metros. Posteriormente, outros fósseis desse gigantesco réptil foram descobertos em vários sítios fossilíferos não só no estado acreano, mas também na Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela.

 

Considerado o maior predador de todos os tempos, o Purussaurus brasiliensis foi descrito pela primeira vez, em 1892, pelo naturalista brasileiro João Barbosa Rodrigues (1842-1909), mineiro de São Gonçalo do Sapucaí, a partir de placas dérmicas e fragmentos de mandíbula. Mas foi o paleontólogo acreano Jonas Souza Filho, ex-reitor da Universidade Federal do Acre, que liderou a equipe responsável pelo achado do fóssil mais completo do Purussaurus, em 1985.

 

Em entrevista concedida a Altino Machado, acreano ex-repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo (para os quais trabalhou durante 10 anos, em Rio Branco, Goiânia, Brasília e Manaus), o paleontólogo explica que “esse jacaré gigante viveu na Amazônia há cerca de 8 milhões de anos. Os indivíduos deste gênero, quando adultos, poderiam alcançar mais de 12 metros de comprimento. Tinha poderosas mandíbulas, dentição típica dos carnívoros, capazes de destroçar ossos e carapaças. Foi um predador de topo de cadeia. O Purussaurus é conhecido hoje como o maior jacaré que existiu no planeta em todos os tempos. Um verdadeiro devorador de animais. Segundo nossos estudos, a estratégia de caça desses jacarés não deveria ser diferente das estratégias utilizadas pelas espécies de jacarés atuais, principalmente a dos crocodilos africanos do Rio Nilo, os maiores dos dias atuais”.

 

“Igualmente aos jacarés atuais, a dieta de Purussaurus deveria incluir os crustáceos e os peixes. Todavia, sua capacidade de sobrevivência deveria estar diretamente ligada à grande quantidade de alimentos que teria que ingerir. Assim, pelo seu porte, o Purussaurus atacava os grandes mamíferos que cruzavam os rios e lagos ou se aproximavam deles para saciar sua sede. Toxodontes, glyptodontes e as preguiças gigantes, contemporâneos, poderiam ser presas fácies destes gigantescos jacarés. Embora exista registro do gênero Purussaurus no Equador, Colômbia, Venezuela, Perú e Bolívia, os achados no Acre indicam que por aqui viveram os maiores deles”.

 

“Em decorrência do grande tamanho, os jacarés purussaurus dependiam de grandes quantidades de água e de alimento para sua sobrevivência e por isso aventuravam-se por centenas e centenas de quilômetros, facilitados pelo seu próprio tamanho e vitalidade, em busca de suas mínimas condições de sobrevivência. Quando alcançavam seu objetivo, que era a de comida em abundância, permaneciam por ali até que outra vez tivessem que migrar”.

 

“A extinção desse grupo de crocodilianos gigantescos ainda intriga os pesquisadores, mas pode estar estreitamente ligada a profundas variações climáticas que aconteceram no final do Período Mioceno e início do Plioceno, há cerca de 5 milhões de anos. Essas mudanças teriam resultado em modificações geológicas e ambientais que, por conseqüência e de forma gradativa, geraram fundamentalmente a indisponibilidade de alimento e água na região. Tais modificações podem ter provocado um estresse ambiental negativo para a sobrevivência deles e de outros grupos contemporâneos. Quando rios e lagos secam, aumenta a concentração de indivíduos, tornando o ambiente super- povoado, gerando combate entre eles e mortandade”.

 

“Por serem grandes e fortes, os purussaurídeos provavelmente tenham resistido por algum tempo geológico, pelo menos em algumas das regiões geográficas onde tiveram seus registros confirmados. Afinal, o tamanho poderia significar também capacidade à resistência às condições adversas e a capacidade de sobrevivência, diferenciada. Na luta por alimento, possivelmente os purussaurídeos tenham utilizado estratégias para além da caça convencional. Tenham também combatido e devorado indivíduos de outras espécies de jacarés de menor tamanho, e de outros purussaurídeos pequenos, como jovens e filhotes. Teriam também atacado ninhos e devorado seus ovos, e por fim, entrado em combate entre si, extinguindo-se no princípio do Plioceno, há 5 milhões de anos”.

 

“É evidente que o que podemos dizer de purussaurus é tão somente inferências a partir dos vestígios que deixaram. Todavia, tais inferências, neste caso, por envolver os jacarés, podem ser melhores elaboradas. Isto porque, muito embora os purussaurídeos estejam extintos, existem os seus representantes atuais que pouco se modificaram ao longo de sua história evolutiva. Estes seus “parentes” atuais podem oferecer vantajosas pistas para a compreensão da origem, evolução e extinção de Purussauros brasiliensis, o terrível lagarto dos rios e lagos pré-históricos da Amazônia”.