NÃO ESTAR NO GIBI
Em 04/04/2010 a Revista da História publicou texto de Gonçalo Júnior (*) sobre o Gibi, revista editada pela empresa jornalística O Globo, uma publicação cujo nome se transformou em sinônimo de história em quadrinhos no Brasil. O referido texto diz que:
Faz tempo que revista em quadrinhos é chamada de gibi no Brasil. A explicação mais comum que se dá é simples: o termo veio da revista Gibi, lançada em 21 de abril de 1939 por Roberto Marinho (1904-2003) – sim, o mesmo do jornal O Globo e da Rede Globo. Teria feito tanto sucesso que virou sinônimo desse gênero de revista. Mas não foi só o êxito da publicação que ajudou a popularizar o termo. Inicialmente, gibi tinha conotação negativa; dizia-se que induzia seus leitores ao crime, entre outros malefícios.
Ao pé da letra, o título “Gibi” significava “negrinho” – tanto que no alto da capa da revista vinha sempre um menino negro com a mão levantada pronunciando a palavra Pelé – teria nascido dali o apelido do maior jogador de futebol de todos os tempos? Mas, na época, esse significado era pouco lembrado.
A cruzada contra os quadrinhos começou no final dos anos 1930 na Itália, quando o líder fascista Benito Mussolini baniu a publicação importada dos Estados Unidos. Os quadrinhos, diziam, “desnacionalizavam” as crianças e incutiam nelas “uma cultura alienígena”.
Essa visão foi importada para o Brasil por padres que começaram a escrever artigos contra os quadrinhos. Uma equipe de educadores do Ministério da Educação e Cultura dizia também que essas histórias prejudicavam o rendimento escolar. Pouco depois, o psiquiatra americano Fredric Wertham alardeou que os quadrinhos de crime e terror induziam os leitores à violação da lei, à prostituição e ao homossexualismo. Mesmo em meio a tanta polêmica, a revista continuava vendendo. Tanto que, em abril de 1940, o Gibi Trissemanal foi transformado em Gibi Mensal. Logo surgiram álbuns especiais com histórias completas e a Coleção Gibi.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o confronto entre editores de jornais colocou os quadrinhos como alvo preferencial dos inimigos de Marinho. Entre 1948 e 1955, Orlando Dantas, do Diário de Notícias, Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, e Samuel Wainer, de Última Hora, resolveram jogar pesado. Fizeram uma intensa campanha para responsabilizar o dono de O Globo pelo aumento da criminalidade infanto-juvenil. Em manchete do dia 25 de julho de 1948, o Diário alardeava: “Monstros, Fantasmas, Crimes e Cenas picantes para ‘divertir’ as crianças”.
Até 1964, muitos projetos de lei de censura aos gibis tramitaram no Congresso Nacional. O tempo passou, o mercado de quadrinhos entrou em declínio e a conotação pejorativa dessas publicações acabou se afastando da palavra gibi. Foi justamente na década de 1960 que o gibi virou sinônimo apenas de uma simples e divertida revista para todas as idades. E até hoje é assim.
Kendi Sakamoto, professor do Centro Universitário Anhanguera Educacional – Unidade Brigadeiro nos cursos de Engenharia Mecânica e TADS´, empresário nas áreas editoriais e de Contact Center, é considerado o maior colecionador de gibis do Brasil (possui em seu acervo cerca de 70 mil gibis). Opinando sobre essas revistas, ele diz que “No mundo encantado das histórias em quadrinhos, o imaginário é a maior fonte de inspiração dos heróis de carne e osso, com suas virtudes e defeitos como qualquer um de nós, os leitores e colecionadores de gibis. E para que haja um momento mais lúdico, esses herois muitas vezes se transformam em Super-heróis, deste ou de outros mundos, usando ou não uniformes esportivos dos mais variados estilos, na convicção plena que o bem sempre triunfa sobre o mal”. E afirma: “A frase popular ‘Não está no gibi’ demonstra claramente o poder de influência dos quadrinhos na formação e educação de milhares de leitores em todo o mundo. .
Segundo alguns dicionários. “Não estar no gibi” significa algo incomum, fora do normal. Para Amauri de Paula, escritor, pesquisador e editor de quadrinhos em Belo Horizonte, Minas Gerais, “As mudanças no sentido da palavra começaram a ser mais sentidas com a mudança das grandes editoras do Rio de Janeiro para São Paulo. Vale lembrar que o uso corrente da expressão gibi era muito difundido no Rio e pouco em São Paulo. Ali começava uma nova fase da palavra gibi. Hoje é comum a um cidadão utilizar a expressão “não está no gibi” sem a obrigatoriedade de estar recorrendo à revista em quadrinhos. Agora gibi é lugar, terra fantástica onde estão as coisas incríveis ou inacreditáveis”.
(*) Gonçalo Junior é autor do livro A Guerra dos Gibis – Roberto Marinho, Adolfo Aizen e a disputa pelo mercado editorial brasileiro entre 1933 e 1964 (Companhia das Letras, 2004).