1575 - GUERRA DE CABO FRIO (RJ)

1575 – GUERRA DE CABO FRIO (RJ)

 

Américo Vespúcio (1454-1512) foi um explorador de oceanos que viajou pelo então Novo Mundo, escrevendo sobre estas terras a ocidente da Europa. Segundo historiadores, em 13 de Maio de 1501 ele partiu de Lisboa na expedição de Gonçalo Coelho, com o objetivo de explorar a recém descoberta costa do Brasil, mas essa frota teve problemas no arquipélago de Fernando de Noronha. Chegando ao litoral brasileiro, Vespúcio navegou sozinho na direção sul, e em 1503 alcançou as terras da atual Cabo Frio, que os índios tupinambás denominavam de gecay, nome que davam ao sal grosso cristalizado. Na barra da lagoa de Araruama ele mandou construir uma fortaleza-feitoria e a guarneceu com 24 homens para explorar o pau-brasil, abundante na região.

 

Na época o litoral brasileiro era ocupado por povos cujas línguas e costumes tinham praticamente a mesma origem. Os tamoios eram um deles, divididos em várias tribos, algumas se autodenominando tupiniquins, e outras, tupinambás. Desde 1504 os franceses traficavam com eles o pau-brasil e outras mercadorias, mas restringindo essa atividade, durante as três primeiras décadas do século 16, ao litoral nordeste brasileiro.

 

A partir de 1540 a atenta vigilância naval portuguesa os levou à busca de outros lugares na nova terra, onde pudessem explorar os recursos naturais (especialmente o pau-brasil) que desejavam. Por isso chegaram a Cabo Frio. Em 1556 eles construíram uma fortaleza-feitoria - a Maison de Pierre (Casa de Pedra) - na mesma ilhota utilizada anteriormente pelos portugueses, o que ampliou e consolidou o domínio francês no litoral sudeste brasileiro, iniciado um ano antes com o Forte Coligny, no Rio de Janeiro. Tal domínio é explicado pelo historiador cearense João Capistrano Honório de Abreu (1853/1927), ou simplesmente Capistrano de Abreu. Segundo este escritor, os índios tupinambás dominavam a faixa litorânea de Bertioga, em São Paulo, até Cabo Frio, e eram amigos dos franceses. Eles tinham se unido na Confederação dos Tamoios com o objetivo de lutar contra os portugueses, que procuravam capturá-los e colocá-los para trabalhar nas primeiras plantações de cana-de-açúcar implantadas na nova terra.

 

Segundo a Prefeitura de Cabo Frio (www.cabofrio.rj.gov.br), a chamada "Guerra de Cabo Frio" aconteceu em 1575, época em que Antônio Salema, um jurista formado em Coimbra, Portugal, governava o Rio de Janeiro. Como sua característica principal era o ódio que sentia pelos índios tamoios, ele reuniu poderoso exército com gente da região da Baía de Guanabara, São Vicente e Espírito Santo, apoiado por grande tropa tupiniquim catequizada. Os oficiais e soldados seguiram por terra e mar, tendo como objetivo liquidar o último reduto da Confederação dos Tamoios e acabar com o domínio francês em Cabo Frio, que já durava vinte anos. O início desses conflitos aconteceu na região hoje conhecida como Tamoios (referência aos índios que povoavam a região), onde fica o 2º Distrito de Cabo Frio.

 

Após o cerco e a rendição da fortaleza franco/tamoia, dois franceses, um inglês e o pajé tupinambá foram enforcados, além de quinhentos guerreiros assassinados a sangue frio e aproximadamente 1500 índios escravizados. As tropas vencedoras também entraram pelo sertão queimando aldeias, matando mais de dez mil índios e aprisionando outros tantos. Os sobreviventes refugiaram-se na Serra do Mar e em Cabo Frio.

 

Devido a carnificina levada a efeito contra os índios, a baixada litorânea, de Macaé até Saquarema ficou transformada em verdadeiro deserto, somente movimentada com a passagem esporádica dos índios goitacazes que vinham até ela à procura da caça e pesca. Embora os portugueses não tivessem colonizado Cabo Frio após o massacre de 1575, cuidaram de estabelecer na região um bloqueio naval mais ou menos eficiente, com base no município do Rio de Janeiro.

 

Mas entre 1576 e 1615, com a perda da independência de Portugal para a Espanha, o porto de Araruama voltou a ser freqüentado por navios franceses, ingleses e holandeses em busca de pau-brasil, tornando-se também a base da pirataria contra embarcações portuguesas que procuravam dobrar o cabo.

 

O termo Cabo Frio apareceu pela primeira vez (1506) em uma coleção de mapas conhecidos como Kunstmann III, coordenados por Konrad Peutinger (1465-1547), cuja parte ocidental foi reproduzida pela primeira vez em 1859, no célebre Atlas do historiador alemão Friedrich Kunstmann. O pergaminho em que estava desenhado media aproximadamente  87 x 117 cm., e representava o Mar Negro, Mediterrâneo, Europa, metade da África e Atlântico, com a Groenlândia, Terra Nova e costa do Brasil. Na composição do nome do lugar, “cabo” é o termo genérico referente ao acidente geográfico, e “frio” a palavra que se refere à sua característica peculiar: uma faixa de água fria em meio a uma zona quente decorrente do regime de ventos locais e da corrente marinha que passa por lá. Este nome geográfico não sofreu alterações ao longo da história, sendo adotado pela feitoria e depois pelo município, prevalecendo até os dias de hoje.

 

Na ilustração acima, o marco Américo Vespúcio, localizado à esquerda da praia dos Anjos, em uma pequena praça arborizada. Ele foi feito em 1968, é de pedra, tem 1,20 m de altura e 30 cm de largura, com uma Cruz de Malta esculpida e também a data do desembarque da expedição do navegador no litoral brasileiro - 1503. Junto ao marco, localiza-se também o Poço D’Água, fonte de água que foi responsável, durante muito tempo, pelo abastecimento do núcleo de pescadores.