PATO-DA-TORRENTE

PATO-DA-TORRENTE

 

O pato-da-torrente (Merganetta armata) é uma   ave que vive na Cordilheira dos Andes, na América do Sul, ao longo dos rios de águas rápidas, frias e cristalinas. Com comprimento entre 38/ 46 cm, é encontrado da Venezuela à Terra do Fogo em altitudes que variam de 1.500 a 4.500 metros, embora possa ser visto a partir do nível do mar. Ele é um dos três patos especializados que habitam as águas correntes nas montanhas do hemisfério Sul. O pato-azul (Hymenolaimus malacorhynchos), da Nova Zelândia, e o pato-de-salvadori (Salvadorina waigiuensis), da Nova Guiné, são os outros dois, mas embora não haja parentesco próximo entre eles, os três possuem características semelhantes que os ajudam a sobreviver em rigorosas condições de temperatura.


Cada casal de pato-da-torrente tem um território que se estende por quase dois quilômetros ao longo de um rio. A alimentação de ambos é composta por moluscos e pequenos peixes capturados das fendas nas rochas com o bico estreito que possuem. Mas apesar de procurar comida em águas mais tranqüilas, onde normalmente a caça é abundante, eles também nadam contra as fortes correntezas fluviais em busca de alimento, mergulhando em trechos onde o leito se transforma em um turbilhão correndo apressado por entre as pedras. Para isso os casais dessas aves trabalham em conjunto, aproveitando ao máximo os recursos disponíveis e chamando um ao outro com assobios agudos que se sobrepõem ao barulho provocado das águas em corredeira. Eles são capazes de enfrentar as águas mais violentas dando a impressão de que força da corrente não os afeta. Passam os dias lutando contra o rio gelado, enquanto procuram alimentos entre as rochas e a vegetação aquática.

 

Existem três subespécies do pato-da-torrente. Os do sul do Chile têm a parte superior de cor cinzenta e o ventre castanho. Os do norte, incluindo os da Colômbia, são menores em tamanho, com a cor cinza mais pálida no dorso e o ventre cinzento-castanho barreado. Já a terceira subespécie, a das aves peruanas, subdivide-se em quatro variedades que apresentam variações de cor. Mas somente os patos-da-torrente chilenos têm uma marca preta sob os olhos.

 

Nas épocas de acasalamento os machos dessa espécie cortejam as fêmeas exibindo orgulhosamente sua plumagem, batendo as asas em ritmo acelerado, saltando como pequenos acrobatas e dando pontapés na água, atirando-a para o alto. Os casais nidificam ao longo das margens ribeirinhas, aproveitando buracos nas árvores, fendas nas rochas ou declives elevados. Nesses locais. as fêmeas da espécie colocam 3 ou 4 ovos em cada postura  cuja incubação é feita durante 43 dias, em média, período durante o qual os machos não se afastam das respectivas fêmeas. Mais adiante as crias são incentivadas a nadar pelas mães, que as chamam insistentemente até elas saltarem na água. Apesar de alguns desses filhotes caírem de encostas íngremes, a maioria não sofre ferimentos. Desde o início as crias nadam naturalmente, com facilidade, sempre acompanhadas pelos pais que as mantêm entre eles e a margem, para protegê-las de qualquer risco imprevisto.

 

Apesar de serem aves pequenas e de corpo magro, os patos-da-torrente estão perfeitamente adaptados à vida em águas de forte correnteza. As membranas natatórias de suas patas lhes permitem nadar contra ou a favor da corrente, e por isso eles passam grande parte do tempo no rio, pois são totalmente resistentes à forças das águas, sendo capazes de se atirarem de quedas d'águas sem sofrer danos. Se forem assustadas, essas aves mergulham em meio à correnteza para fugir do que porventura as esteja ameaçando. Quando não estão se alimentando, os patos torrentes nadam sem pressa, próximos de rochas ou vegetação e em águas mais calmas. Também se empoleiram em rochas no meio do rio, longe de predadores.

 

Mesmo sendo fortes e corajosos, os patos da torrente são muitos sensíveis a alterações ocorridas no ambiente em que vivem.  Uma delas, o desmatamento descontrolado, vem causando inundações repentinas que destroem locais de nidificação e limitam as fontes de alimento. Outra, a exploração de minérios em ritmo cada vez mais acelerado, redundou na poluição das águas por metais e ácidos que prejudicam todos os animais que as bebem. Além disso, muitos dos ambientes ribeirinhos foram destruídos por barragens hidroelétricas construídas para atender a exigência cada vez maior de energia nas indústrias e cidades.

 

 Em virtude desses atentados ao meio-ambiente, as três subespécies são hoje legalmente protegidas, embora, apesar de sua vulnerabilidade crescente, elas não sejam consideradas como sob ameaça de desaparecimento.

 

Antigamente acreditava-se que os esporões nos tornozelos do pato-da-torrente serviam para ancorá-lo em águas de forte correnteza. Hoje, no entanto, sabe-se que não é assim. Na realidade, eles são usados em rituais de acasalamento e em batalhas territoriais, lutas essas em que as aves envolvidas raramente mantêm contato físico. O que, provavelmente, é devido ao risco de ferimentos sérios causados pelos esporões.