LINGUAGE DOS ÓIO

LINGUAGE DOS ÓIO 

Antônio Gonçalves da Silva – Patativa do Assaré

 

 Quem repara o corpo humano / E com coidado nalisa, / Vê que o Autô Soberano / Lhe deu tudo o que precisa, / Os orgo que a gente tem / Tudo serve munto bem, / Mas ninguém pode negá / Que o Auto da Criação / Fez com maior prefeição / Os orgo visioná.

 

Os óio além de chorá, / É quem vê a nossa estrada / Mode o corpo se livrá / De queda e barruada / E além de chorá e de vê / Prumode nos defendê, / Tem mais um grande mister / De admirave vantage, / Na sua muda linguage / Diz quando qué ou não qué.

 

Os óios consigo tem / Incomparave segredo, / Tem o oiá querendo bem / E o oiá sentindo medo, / A pessoa apaixonada / Não precisa dizê nada, / Não precisa utilizá / A língua que tem na bôca, / O oiá de uma caboca / Diz quando qué namorá.

 

Munta comunicação / Os óio veve fazendo / Por izempro, oiá pidão / Dá siná que tá querendo / Tudo apresenta na vista, / Comparo com o truquista / Trabaiando bem ativo / Dexando o povo enganado, / Os óios pissui dois lado, / Positivo e negativo.

 

Mesmo sem nada falá, / Mesmo assim calado e mudo, / Os orgo visioná / Sabe dá siná de tudo, / Quando fica namorado / Pela moça despresado / Não precisa conversá, / Logo ele tá entendendo / Os óios dela dizendo, / Viva lá que eu vivo cá.

 

Os óios conversa munto / Nele um grande livro inziste / Todo repreto de assunto, / Por izempro o oiá triste / Com certeza tá contando / Que seu dono tá passando / Um sofrimento sem fim, / E o oiá desconfiado / Diz que o seu dono é curpado / Fez arguma coisa ruim.

 

Os óis duma pessoa / Pode bem sê comparado / Com as água da lagoa / Quando o vento tá parado, / Mas porém no mesmo istante / Pode ficá revortante / Querendo desafiá, / Infuricido e valente; / Neste dois malandro a gente / Nunca pode confiá.

 

Oiá puro, manso e terno, / Protetó e cheio de brio / É o doce oiá materno / Pedindo para o seu fio / Saúde e felicidade / Este oiá de piedade / De perdão e de ternura / Diz que preza, que ama e estima / É os óio que se aproxima / Dos óio da Virge Pura.

 

Nem mesmo os grande oculista, / Os dotô que munta estuda, / Os mais maió cientista, / Conhece a lingua muda / Dos orgo visioná / E os mais ruim de decifrá / De todos que eu tô falando, / É quando o oiá é zanoio, / Ninguém sabe cada óio / Pra onde tá reparando.