MÃE PRETA
Antônio Gonçalves da Silva – Patativa do Assaré
O coração do inocente, / É como a terra estrumada, / Qui a gente pranta a simente / E a mesma nace corada, / Lutrida e munto viçosa./ Na nossa infança ditosa, / Quando o amô e a simpatia / Toma conta da criança, / Esta sodosa lembrança / Vai batê na cova fria.
Quem pela infança passou, / O meu dito considera, / Eu quero, com grande amô, / Dizê Mãe Preta quem era. / - Mãe Preta dava a impressão / noite de iscuridão, / com seus mistero profundo, / Iscondendo seus praneta; / Foi ela a preta mais preta / Das preta qui eu vi no mundo.
Mas porém, sua arma pura, / Era branca como a orora, / E tinha a doce ternura / Da Virge Nossa Senhora. / Quando amanhecia o dia, / Pra minha rede ela ia / Dizendo palavra bela; / Pra cuzinha me levava / E um cafezim eu tomava / Sentado no colo dela.
Quando as minha brincadêra / Causava contrariedade / A minha mãe verdadêra / Com a sua otoridade, / As vez brigava comigo / E num gesto de castigo, / Botava os óio pra mim, / Mas porém, não me batia, / Somente pruque sabia / Qui mãe preta achava ruim.
Por isso eu não tinha medo, / Sempre contente vivia / Mexendo nos meus brinquedo / E fazendo istripolia. / Dentro de nossa morada, / Pra mim não fartava nada, / O meu mundo era Mãe Preta; / Foi ela quem me ensinou / Muntas cantiga de amô, / E brincá de carrapeta.
Se as vez eu brincando tava / De barbuleta a pegá, / E impaciente ficava / Inraivicido a chorá, / Ela com munta alegria, / Um certo jeito fazia, / Com carinho e com amô, / Apanhava as barbuleta; / Foi ela uma santa preta, / Que o mundo de Deus criou.
Se chegava a noite iscura / Com seus negrume sem fim, / Ela com toda ternura, / Chegava perto de mim / Uma coisa cochichava / E depois qui me bejava, / Me levava pra dromida / Sobre os seus braços lustroso. / Aquilo sim, era gozo, / Aquilo sim, era vida.
E despois de me deitá / Na minha pequena rede, / Balançava devagá / Pra não batê na parede, / Contando estes lindos verso / Qui neste grande universo / Ôtros mais belo não vi, / E enquanto ela balançava / E estes versinho cantava, / Eu percurava dromi.
Dorme, dorme, meu menino, / Já chegou a escuridão, / A treva da noite escura / Está cheia de papão. / No teu sono terás beijos / Da rosa e do bugari / E os espíritos benfazejos / Te defendem do saci. / Dorme, dorme, meu menino, / Já chegou a escuridão / A treva da noite escura / Está cheia de papão. / Dorme teu sono inocente / Com Jesus e com Maria, / Até chegar novamente / O clarão do novo dia.
Iscutando com respeito / Estes verso pequenino, / Eu sintia no meu peito / Tudo quanto era divino; / Nem tuada sertaneja, / Nem os bendito da igreja, / Nem os toque de retreta, / In mim ficaro gravado, / Como estes versos cantado / Por minha boa Mãe Preta.
Mas porém, eu bem menino, / Qui nem sabia pecá, / Os ispinho do destino / Começaro a me furá. / Mãe Preta qui era contente, / tava um dia deferente. / Preguntei o que ela tinha / E assim que ela oiô pra eu / Dois pingo d'água desceu / Dos óio da coitadinha.
Daquele dia pra cá, / Minha amorosa Mãe Preta, / Não pôde mais me ajudá / Nas pega de barbuleta, / Sem prazê, sem alegria / Dentro de um quarto vivia, / O dia e a noite intêra, / Sem achá consolação, / Inriba de seu croxão / De foia de bananera.
Quando ela pra mim oiava, / Como quem sente um desgosto, / A minha mão apertava / E o pranto banhava o rosto. / Divido este sofrimento, / Naquele seu aposento, / No quarto onde ela viva, / Me improibiro de entrá, / Promode não magoá / As dô que a pobe sintia.
Eu mesmo dizê não sei / Qual foi a surpresa minha, / Quando um dia eu acordei, / Bem cedo domenhãzinha / Entrei na sala e dei fé / Qui um magote de muié / Tava rezando oração; / E vi Mãe Preta vestida / Numa ropona comprida, / Arva, da cô de argodão.
Sinti no peito um cansaço, / Depois uns home chegaro / Levantaro ela nos braço / E numa rede botaro. / A rede tava amarrada / Numa peça perparada / De madêra bem polida, / E naquela mesma hora, / Levaro de estrada afora / Minha Mãe Preta querida.
Mamãe com todo carinho, / Chorando um bêjo me deu / E me disse - meu fiinho, / Sua Mãe Preta morreu! / E ôtras coisa me dizendo, / Sinti meu corpo tremendo, / Me jurguei um pobre réu, / Sem consolo e sem prazê, / Com vontade de morrê, / Pra vê Mãe Preta no céu.
O coração do inocente, / É como terra estrumada / Que a gente pranta a semente, / E a mesma nasce corada / Lutrida e munto viçosa; / Na nossa infança ditosa, / Quando o amô e a simpatia / Toma conta da criança, / Esta sodosa lembrança / Vai batê na cova fria.