MARIA-FARINHA
O maria-farinha é um caranguejo, e não um siri. Mas todo siri também é um caranguejo. A explicação é simples: siri não passa de um nome popular dado aos membros da Portunidae, uma das várias famílias de caranguejos. Ambos pertencem a um grupo maior de crustáceos, os decápodes, que, como diz o nome, têm como principal característica o fato de possuírem dez patas. Oito servem para locomoção, e as duas "pinças" da frente são usadas para pegar comida, cavar e se defender dos inimigos.
Os dois (maria-farinha e siri) são parecidos quanto ao aspecto físico, embora existam diferenças externas básicas entre eles. Como a do tamanho, por exemplo, pois o caranguejo é maior que o siri. Sobre o formato do corpo, o primeiro o tem mais alto e arredondado, enquanto o do segundo é achatado. A mais importante dessas distinções é a de que, nos siris, as patas traseiras do último par terminam de forma achatada, como se fossem nadadeiras, o que lhes dá maior facilidade de locomoção na água. As dos caranguejos são pontudas, e é por isso que eles vivem entre rochas e areia. Mas além dessas existem outras diferenças físicas entre siris e caranguejos:
- Os siris possuem um prolongamento longitudinal na carapaça achatada, o que possibilita uma melhor hidrodinâmica.
- Em geral, os siris possuem espinhos na lateral do corpo, enquanto que os caranguejos são mais arredondados.
- O par de patas dianteiras do siri tem o mesmo tamanho, ao passo que os caranguejos, em geral, possuem, uma maior do que a outra.
O Maria-farinha (Ocypode spp.) é, pois, um caranguejo que possui carapaça quadrada e coloração branco-amarelada, de onde sobressaem olhos bem desenvolvidos, através dos quais ele geralmente localiza sua toca. Encontrado na costa leste dos Estados Unidos e no litoral do Brasil, ele vive em praias arenosas, escondendo-se em buracos cavados acima da linha da maré alta, que é para ficar longe do alcance da água, no limite extremo da praia onde a vegetação se instala. É aí que constrói sua toca, cavando-a com as quelas (tenazes, ou garras, ou pinças, dos apêndices de diversos crustáceos e aracnídeos).que usa como escavadeiras, e transportando para longe a areia retirada. Essas tocas podem alcançar um metro ou mais de profundidade, e têm a forma de um jota.
A reprodução dessa espécie acontece provávelmente entre a primavera e o início do verão, coincidentemente quando ocorrem os dois picos de maturação nas fêmeas. Tanto que a cópula foi registrada nos meses de maio, agosto e setembro. Há relação entre o período reprodutivo e a temperatura.
De hábitos noturnos (período em que sai para se alimentar), o maria-farinha é um animal detritívoro, nome dado em biologia aos animais que se alimentam de restos orgânicos (plantas ou animais mortos). Os exemplos mais comuns incluem os urubus, os abutres, as hienas e várias espécies de escaravelhos e moscas. Ele é conhecido por diversos nomes (conforme a região), entre eles os de ariscos, aguarauçá, cabeleireiro, siri-fantasma, espia-maré, grauçá, guaruçá, guriçá, cerca-maré, vaza-maré, maruim, sarará, caranguejo-fantasma, caranguejo-da-areia, siri-branco ou caranguejo-branco-da-areia.
Na praia cearense de Aranaú, próxima a Jericoacara, esse nome também é dado a um siri de cor vermelha que sobe nos galhos dos manguezais para fugir da enchente da maré ou para procurar alimento.
Por ter a mesma coloração da areia, o maria-farinha não é percebido com facilidade por quem não o esteja procurando. O mimetismo, que é a capacidade de camuflagem que algumas espécies de animais possuem, lhe confere essa proteção, ajudando-o a se livrar dos predadores. Sua presença em determinadas praias serve como indicativo de que o local é limpo e despoluído.
Esse pequeno crustáceo empresta seu nome a um grande paraíso náutico do nordeste. A praia de Maria Farinha, no município de Paulista, litoral norte de Pernambuco, a cerca de 16 quilômetros da capital Recife, possui vários condomínios de luxo ao longo do canal de Santa Cruz, que divide a praia em dois lados.