PREGAR UMA PEÇA
Peça é um substantivo feminino com muitos significados. Entre eles os de pedaço, parte; cada um dos elementos de alguma coisa; cada uma das pedras em jogos de tabuleiro; compartimento de uma casa; documento que faz parte de um processo; composição dramática; qualquer artefato, além de outras mais. Exemplos dessa utilização estão presentes nas frases “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”, de Charles Chaplin; e também em “O encanto da novidade, caindo pouco a pouco como uma peça de roupa, punha a nu a eterna monotonia da paixão, que tem sempre as mesmas formas e a mesma linguagem”, de Gustave Flaubert. Ou então “A palavra, como peça coringa com a qual é possível tudo construir (e desconstruir), é fundamental para Arnaldo Antunes, que encerra a turnê do disco ‘Ao Vivo no Estúdio’, neste sábado (27), no Tom Jazz, publicada no jornal Folha de São Paulo em 27/06/2009”.
Já no sentido figurado ela é usada para indicar o ludibrio, o logro, a pessoa maliciosa ou de má índole. Como locução adverbial de meio ou instrumento, é aproveitada na expressão popular “pregar uma peça”, ato cuja intenção é a de causar contrariedade ou desgosto a alguém. Nesse sentido, dizemos que pregamos uma peça a fulano ou sicrano, quando o enganamos ou por brincadeira ou então por pura maldade. .
Existem várias explicações para a origem dessa frase, mas não se sabe ao certo qual a verdadeira. Uma delas, do tempo da escravatura, diz que peça era uma das denominações dada aos africanos trazidos para o Brasil. Para enganar os interessados na compra de homens saudáveis, os traficantes diziam que alguns dos infelizes eram jovens, quando na verdade já estavam além dos 30 anos de idade. Em outra. “pegar uma peça”, que aí aparece com sentido de tecido, pano, era roubar nos armarinhos de então, enganando o dono.
A revista Seleções Reader’s Digest publicou já há algum tempo, uma entrevista com o comediante americano Tom Mabe, de 42 anos, considerado um prodigioso pregador de peças. Tanto que essa sua capacidade de brincar com coisa séria se tornou real aos 8 anos de idade. Como? Ele acabara de fazer um boneco de neve no jardim de sua casa, no Kentucky, Estados Unidos, quando um grupo de adolescentes que passava num carro atropelou propositalmente a sua obra. Tom fez, então, outro boneco, que logo foi destruído do mesmo jeito. Como bom malandro não berra, ele preparou caprichosamente um terceiro, mas em torno de um hidrante. O final da história é contado por ele em poucas palavras “E lá estava eu junto do carro amassado, com água saindo por todo lado e aquela cara de ‘Caramba, nunca pensei que alguém atropelaria um boneco de neve”. Sua explicação, depois de tantos anos já passados, e a de que “Eu era pequeno. E inventei esse jeito meio covarde de me vingar”.
Segundo a revista, Mabe tem agora um metro e noventa de altura, mas nunca perdeu o seu jeito de criança. Sua especialidade é “torturar” operadores de telemarketing. Certa vez, hospedou-se num hotel em Washington, onde havia uma convenção dos profissionais dessa área, e passou a noite dando trotes, tentando vender aos operadores, às três horas da madrugada, remédios contra insônia. A recepção acabou lhe pedindo que parasse, porque um dos hóspedes estava irritadíssimo. Mabe prometeu dar um jeito na situação. Telefonou para o hóspede e identificou-se como gerente do hotel.
- Senhor, sinto muito que tenha perdido o sono. Acho que podemos lhe oferecer uma compensação.
- Graças a Deus! – disse o homem.
- Então, lá vai: Nana, nenê, que a cuca vem pegar...
Tom Mabe explicou que pregava suas peças por vingança e diversão. A melhor de todas, segundo ele, aconteceu quando viu dois sem-teto na frente de um McDonald’s. “Liguei para o restaurante e fingi que era da polícia, dizendo que, na verdade, os dois também eram policiais e estavam disfarçados. Convenci o gerente a lhes servir hambúrgueres e café”. Em sua opinião, a melhor peça pregada por outra pessoa aconteceu quando seu amigo Jim Clark levou a família ao zoológico. “Na hora da saída, ele e a família passaram correndo entre os que entravam, gritando: ‘Corram! Eles estão vindo!’ Todo mundo tentou se proteger, subindo nas mesas!”
Por que ele faz isso? Sua explicação imediata é a de que “Pregar peças em alguém é o esporte dos que buscam emoções fortes. O momento antes de aprontarmos alguma delas é pura adrenalina.”