ACABOU-SE O QUE ERA DOCE
Criado no bairro carioca de Vila Isabel, Noel de Medeiros Rosa (1910-1937), ou simplesmente Noel Rosa, foi um dos maiores e mais importantes compositores brasileiros. Suas primeiras composições - Minha Viola e Festa no Céu – datam de 1929, mas foi em 1930 que ele conheceu o sucesso com o samba “Com que roupa?”, que se tornou um clássico do cancioneiro brasileiro. Tem-se como verdadeira a versão de que a inspiração para essa música lhe veio no dia em que ia sair com amigos, mas a mãe escondeu suas roupas. Com pressa, ele então perguntou: "Com que roupa eu vou?".
Noel Rosa foi autor de 259 composições, entre elas Malandro medroso (1930), Cordiais Saudações (1931), Ate amanhã (1932), Quando o samba acabou (1933), Dama do cabaré e Feitiço da Vila (1934), Conversa de botequim e Deixa de ser convencida (1935), De babado e São coisas nossas (1936), Não morre tão cedo e Verdade duvidosa (1937). Além delas, entre as tantas outras, “No baile da Flor-de-lis”, de 1937, cuja letra diz:
No baile da Flor de Lis / Quem dançou pediu bis / Bis, bis! / Mas acabou-se o que era doce / Quem comeu arregalou-se / Quem não comeu suicidou-se
Quando a música parou / O mestre-sala gritou: / "Cavalheiros ao buffet!" / E o tal doce de coco / Que era bom, mas era pouco / Não chegou para você
Encontrei muito funil / A chorar junto ao barril / Quando o chope se esgotou / Houve a tal pancadaria / Com a qual se anuncia /Que o baile terminou.
A expressão “acabou-se o que era doce”, acompanhada de “quem comeu arregalou-se”, já era usada, portanto, em 1937. Ela é uma lengalenga, jogo de palavras de origem portuguesa, que forma textos construídos com frases curtas geralmente rimadas, repetindo sons e vocábulos que procuram explorar a linguagem oral através de uma forma lúdica. Como em “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, e o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”. No Brasil, essa palavra é usada para qualificar uma narração enfadonha, um discurso longo e monótono
Entre elas encontra-se também o “Atirei o pau no gato, to...”, além da quase desconhecida mensagem “Acabou-se a papa doce, quem comeu arregalou-se”. Foi dela que surgiu entre nós a expressão “acabou-se o que era doce”.
Para referir-se a alguém que abriu muito os olhos por satisfação ou espanto, costuma-se usar o verbo arregalar (ele arregalou os olhos quando viu o que estava acontecendo), embora regalar (regalar a alma e os olhos) também tenha entre seus significados os de satisfazer a alguém, enchê-lo de satisfação, o que importa em dizer que tanto um como outro podem transmitir a mesma idéia de que alguém comeu alguma coisa e ficou satisfeito.
O doce, como sinônimo de coisa saborosa e desejada, tão ao gosto das crianças, aparece constantemente nas músicas populares (como em A Banda, de Chico Buarque – Mas para meu desencanto / o que era doce acabou / tudo tomou seu lugar / depois que a banda passou); nas conversas românticas de namorados (você é um doce); na sabedoria proverbial de nossos sertanejos nordestinos (não há doce ruim nem cabra bom); no relacionamento entre pessoas (que seja sempre doce nossa amizade); no destempero dos inconformados (a vingança é doce), na exaltação às mães (mãe, palavra doce, cheia de graça e amor), e ainda em tantos e tantos outros momentos de nosso cotidiano.
A frase revela que não mais existe aquilo que se queria, que se desejava desfrutar. Resumindo, “acabou-se o que era doce” significa dizer que quem aproveitou, aproveitou; quem não aproveitou, perdeu, não aproveita mais!