Entre os grandes animais predadores, a onça-pintada é um dos menos conhecidos. Seu aparecimento em terras americanas é explicado por duas teorias: uma sugere que entre 1,6 e 100.000 anos atrás vivia no norte do continente a Panthera augusta, um animal gigantesco que foi diminuindo de tamanho até ficar reduzido às dimensões da onça atual; a outra admite que os dois animais habitaram o mesmo espaço, ao mesmo tempo, até que a onça gigante desapareceu por motivos ignorados. Só não existe dúvida quanto ao fato de que há milhões de anos a onça alcançou o continente americano pelo estreito de Bhering, e depois, quando o istmo do Panamá emergiu, ela alcançou a parte sul das Américas, espalhando-se então pela área que vai dos Estados Unidos ao norte da Argentina.
Conforme acontece com a maioria dos predadores, as onças também são animais solitários, o que talvez tenha ligação com a disponibilidade de alimento em seus territórios. Sendo o maior mamífero carnívoro do Brasil, elas necessitam de pelo menos dois quilos de comida por dia, o que determina a ocupação de um território que lhe possibilite capturar grande variedade de presas, que são, naturalmente, as mais fáceis de serem abatidas, em geral indivíduos inexperientes, doentes ou mais velhos. Suas patas curtas não lhes permitem longas corridas, porém lhes proporcionam grande força, o que é fundamental para dominar animais possantes como antas, capivaras, queixadas, tamanduás e até mesmo jacarés. Ocasionalmente, quando a fome aperta e não encontram outra presa, esses felinos atacam e devoram grandes serpentes (jibóias e sucuris). Enquanto os outros grandes felinos matam suas vítimas, mordendo-as na jugular, a onça o faz atacando-as diretamente na cervical, graças a suas mandíbulas poderosas, as mais fortes de todos os felinos e a segunda mais forte entre os carnívoros terrestres. A mordida de uma onça pode facilmente atravessar o casco de uma tartaruga. Apesar disso, o onça não se furta em comer pequenos animais se a chance lhe aparece. O território das fêmeas da espécie abrange uma área de 25 a 38 km2, enquanto os machos reservam para si áreas com o dobro da extensão.
Apesar de temidas pela ferocidade com que agem, as onças fogem da presença humana, sendo raros os relatos de ataques efetuados por elas contra o homem. No entanto, em períodos de escassez de alimentos elas podem invadir fazendas em busca de animais domésticos que saciem sua fome. Infelizmente, a rápida destruição de seu habitat, além da caça e envenenamento por parte de pecuaristas, têm contribuído para o declínio do número de onças em toda a América, e por isso elas já se encontram à beira da extinção em nosso país. Nos Estados Unidos elas desapareceram em 1986, tendo sido avistada pela última vez no estado do Arizona.
De hábitos noturnos, as onças habitam florestas úmidas às margens de rios e ambientes campestres existentes desde a Amazônia e Pantanal, até os pampas gaúchos. Excelentes caçadoras que são, elas costumam abater capivaras, veados, catetos, pacas e até peixes, podendo também caçar macacos e aves, e são muito cautelosas quando atacam, deslocando-se contra o vento e aproximando-se silenciosamente para surpreender a presa, saltando sobre seu dorso. Foi desse tipo de comportamento que surgiu o nome jaguar ou jaguará, cujo significado, no dialeto Tupi-Guarani, é o de o que mata com um salto.
Por serem errantes, percorrem grandes distâncias desfrutando de tudo que a floresta lhes oferece, daí ser comum que subam em árvores frondosas para repousar em galhos resistentes, ou então, quando desejam cruzar áreas alagadas sem molhar o corpo. O que não significa que não gostem de tomar banho, pois mesmo não transpondo rios e ribeirões em sua locomoção normal, os machos da espécie não receiam atravessar à nado cursos d’água relativamente largos, nos quais chegam a mergulhar em dias quentes somente para refrescar o corpo.
É fácil ouvir os sons emitidos pela onça, comparáveis a rosnados, miados, uivos e grunhidos. Mas na verdade, sua voz normal lembra a tosse rouca de alguém, enquanto em outras oportunidades pode parecer um gemido ou o ruído de serra cortando madeira. Aparentemente, os rugidos, rosnados e miados são sinais auditivos que as onças emitem para comunicação ente si, embora não se conheça o significado real desses chamamentos. A suposição é a de que os seus gritos, feitos aos arrancos e ajustados ao ritmo respiratório do animal, estão ligados à posse do território, enquanto os miados têm alguma relação com o seu comportamento sexual.
As onças-pintadas só buscam companhia para a formação de um par durante a época de acasalamento. As fêmeas têm um período de gestação que dura, em média, cerca de cem dias, podendo produzir até quatro filhotes em cada uma delas, embora só dois deles sejam criados. Estes, que permanecem com a mãe até os dois anos de idade, nascem cegos e só passam a enxergar quando atingem duas semanas de vida. Os machos atingem a maturidade sexual em torno dos três anos, enquanto as fêmeas a alcançam com dois anos. Em cativeiro, as onças vivem até 20 anos.
Diz-se que ainda hoje os índios do Brasil guardam a gordura da onça abatida e a comem com a ponta de uma flecha, porque acreditam que ela lhes dá grande coragem, assim como se fosse a porção de um feiticeiro. Essa gordura também é esfregada no corpo dos meninos, para torná-los fortes e protegê-los contra o mal.