DOIS QUADROS
Antônio Gonçalves da Silva - “Patativa de Assaré”
Na seca inclemente do nosso Nordeste / o sol é mais quente e o céu mais azul, / e o povo se achando sem pão e sem veste, / viaja à procura das terra do Sul.
De nuvem no espaço, não há um farrapo, / se acaba a esperança da gente roceira. / Na mesma lagoa da festa do sapo, / agita-se o vento levando a poeira.
A grama no campo não nasce, não cresce, / outrora este campo tão verde e tão rico, / agora é tão quente que até nos parece / um forno queimando madeira de angico.
Na copa redonda de algum juazeiro / a aguda cigarra seu canto desata, / e a linda araponga que chamam Ferreiro, / martela o seu ferro por dentro da mata.
O dia desponta mostrando-se ingrato, / um manto de cinza por cima da serra, / e o sol do Nordeste nos mostra o retrato / de um bolo de sangue nascendo da terra.
Porém, quando chove, tudo é riso e festa, / o campo e a floresta prometem fartura, / escutam-se as notas agudas e graves / do canto das aves louvando a natura.
Alegre esvoaça e gargalha o jacu, / apita o nambu e geme a juriti, / e a brisa farfalha por entre as verduras, / beijando os primores do meu Cariri.
De noite notamos as graças eternas / nas lindas lanternas de mil vagalumes / na copa da mata os ramos embalam, / e as flores exalam suaves perfumes.
Se o dia desponta, que doce harmonia! / A gente aprecia o mais belo compasso / além do balido das mansas ovelhas, / enxames de abelhas zumbindo no espaço.
E o forte caboclo da sua palhoça, / no rumo da roça, de marcha apressada. / vai cheio de vida sorrindo, contente, / lançar a semente na terra molhada.
Das mãos deste bravo caboclo roceiro, / fiel, prazenteiro, modesto e feliz, / é que o ouro branco sai para o processo / fazer o progresso de nosso país.