MATUTO E O DOUTOR, O
Zé Laurentino
Dotô, não sou rico não / Mas vivo desapertado / Tenho uma casa de alpende / Vinte cabeça de gado / Uns quatro burro de caiga / E um cavalo manga laiga / Prumode eu andá montado.
Tenho uma roça bonita / De uveia tenho rebanho / Tenho um açude cheinho / Só mecê vendo o tamanho / Onde eu dou água a meu gado / E quando o calô ta danado / Serve mode eu toma banho.
Tenho um casá de menino / Uma mulé de verdade / Tenho um rádio falado / Qui eu comprei na cidade / E uma viola de pinho / Onde toco bem cedinho / Mode ispantá a sodade.
Um boi, um cutivador, / Vinte quadro de raiz, / E tá todinho cercado / A cerca fui eu quem fiz / Bode pru riba não sarta / Mais com tudo ainda farta / Uma coisa preu sê feliz.
Pode acreditá douto / Eu vivo sentindo fome / Mas não é fome de comida / Lá em casa a gente come / Tem dinheiro na gaveta / Eu sinto fome é das letra / Eu quero assiná meu nome.
P’ra eu não mandá lê carta / Pelos fí de seu Honoro / Pruquê as veis é segredo / E ele espaia o falatoro / Descubrindo os meu segredo / Pra eu não suja mais os dedo / Nos tinteiro dos cartoro.
Pra não anda preguntando / Os carro pra donde vão / Pra quando eu fô pra os banco /
Não leva pricuração / Quero meu nome assiná / Prumode eu também votá / Nos dia de inleição.
Me ensine lê seu douto / Eu peço pru caridade / Voimicê que é sabido / Que mora aqui na cidade / Me ensine a lê e contá / Prumode eu podê completá / A minha felicidade.
Doutor: Caboclo, eu não te ensino / Mas te aconselho, afinal / Quer aprender a ler? / Carta, bilhete, jornal? / Ler, escrever e contar / Pois vais te matricular / Num dos postos do Mobral.
Lá tu irás encontrar / Professora competente / E que no mundo dos livros / Vai clarear tua mente / Saber é algo profundo / Tu irás ver este mundo / Com uma visão diferente.
Vai, caboclo nordestino / Da bravura és o perfil / A escola te espera / Com teu aspecto gentil / Ponha os livros nas mãos / Vais ajudar teus irmãos / A educar o Brasil..
Matuto: Muito obrigado douto / Pelo conseio, o afeto, / Vô convida a mulé, / Meus fios tomém meus neto / Não vô mais sê imbeci / E breve eu grito ao Brasí / Não sô mais anarfabeto!
Vô hoje mermo pra iscola / Com o livro, caderno e giz / Pois estudano eu tomem / Ajudo ao meu país / Depois que eu aprende a lê / Aí eu posso dize / Sô um cabôco feliz!!!