SAMBA, O
Pompilio Diniz
O samba nasceu assim: / Já era madrugadinha, / a cuíca e o tamborim / descendo o morro já vinha, / onde quase a noite inteira / tocaro na gafiera / em homenage a Zefinha.
Foi ela, porta-bandeira / baliza do carnavá, / rainha da gafiera / mais outras coisas pru lá. / Onde tivesse Zefinha / malandro perdia a linha / e as cabrocha o rebolá.
Carioca e baianinho, / dois malandro, dois rivá, / tão respeitado no pinho / cumo também no punha, / foram gostá de Zefinha, / que há muito tempo já vinha / querendo os dois namorá.
Carioca , conhecido / no morro Pindura Saia ; como malandro temido / no manejo da naváia. / Baianinho na pexera, / ligero na capoera / também no rabo-de-arraia.
Nessa noite, sêo doto, / quizero a limpo tirá / toda essa rixa de amo / pra ver quem ia ficá / com a cabrocha facera. / rainha da gafiera, / baliza do carnavá.
Carioca, arreliado, / querendo mostrar valô, / naquele passo gingado / de malandro brigado, / com corage e desassombro / bateu com força no ombro / do Baianinho e falo:
- Faz a pista, Baianinho, / comigo tu não tem vez. / Chuta a erva de mansinho, / passa as férias que tu fez. / Dá o pira e não me amola / sinão a justa te esfola / numa fria do xadrez.
- Sê besta, cabra da peste, / pensa que eu ligo, naváia? / Comigo o nego que investe / eu toco um rabo-de-arraia, / mermo no pé to toitiço, / que ele roda iguá caniço / e corre quiném “biscáia”.
Baiano, mora a jogada, / te manca, não me faz pó / A morena foi na cantada / desguia, me dexa só. / Vai, meu chapa, dá no pé, / sabe o papai cumo é... / eu te fecho o paletó...
- Pois mete os peito, bichim, / pra tu ver que bicho dá.. / Eu não sou pau de cupim / pra frumiga se atrepá.. / Na ponta dessa pexera / teu corpo vira penera / de tanto eu te futucá
Em dois segundo despois / cruzaro rabo-de-arráia, / Travou-se a luta dos dois, / pexera contra naváia.. / E a batucada bem forte / marcou a dança da morte / no morro Pindura Saia.
Era um ritmo diferente / dos batuque dos terreiro. / Dançado por dois valente / num passo curto e ligero, / onde a força e a destreza / acompanhava a beleza / da cadência do pandero.
Dês vez em quando se ouvia / o carioca gritá: / - Baiano...chego teu dia, / dessa vez vou te cortá; / E os dois naquela manobra, / davam bote que nem cobra, / e pulo quiném preá..
Cortou fundo a navaiada, ; Baiano ficou maluco, / rodopiou na pernada / bem na bera do cavuco. / E disse franzindo a testa / - Carioca da molesta / não me venha, que eu futuco.
- Não FUTUCA - TE FUTUCO
- Não FUTUCA - TE FUTUCO
E a cuíca acelerada, / continuou na toada... / te futuco - não futuca / te futuco - não futuca... / Te futuco - não futuca / te futuco - não futuca / te futuco - não futuca...
E forte rufou o pandero./ entre os soluços do pinho, / Carioca e Baianinho / rolaro o despenhadero;. / Nessa noite o morro inteiro, / cantando, chorou, gemeu.. / E foi assim que nasceu / nosso samba brasileiro.