ALCO E A GASOLINA

ALCO E A GASOLINA

Patativa de Assaré

 

http://fernandod.com.br/images/textos/ALCO%20E%20A%20GASOLINA.jpgNeste mundo de pecado / Ninguém qué vivê sozinho / Quem viaja acompanhado / Incurta mais o caminho / Tudo que no mundo existe / Se achando sozinho e triste, / O alco vivia só / Sem ninguém lhe querê bem / E a gasolina também / Vivia no caritó.

 

O alco tanto sofreu / Sua dura e triste sina / Até que um dia ofreceu / Seu amô a gasolina  / Perguntou se ela queria / Ele em sua companhia, / Pois andava aperriado / Era grande o padecê / Não podia mais vivê / Sem companhêra ao seu lado.

 

Disse ela: dou-lhe a resposta / Mas fazendo uma proposta / Sei que de mim você gosta  / E eu não lhe acho tão feio / Porém eu sou moça fina, / Sou a prenda gasolina / Bem recatada, granfina / E gosto muito de asseio.

 

Se você não é nojento / É grande o contentamento / E tarvez meu sofrimento / Da solidão eu arranque, / Nós não vamo nem casá  / Do jeito que o mundo tá  / Nós dois vamo é se juntá  / E morá dentro do tanque.

 

Se quisé me acompanhá / No tanque vamo morá / E os apusento zelá / Com carinho e com amô, / Porém lhe dou um conseio / Não vá fazê papé feio / Quero limpeza e asseio / Dentro do carburadô.

 

Se o meu amô armeja / E andá comigo deseja, / É necessaro que seja / Limpo, zeladô e esperto, / Precisa se controlá, / Veja que eu sou minerá  / E você é vegetá, / Será que isto vai dá certo?

 

Disse o alco: meu benzinho / Eu não quero é tá sozinho / Pra gozá do teu carinho / Todo sacrifiço faço,/ Na nossa nova aliança / Disponha de confiança / Com a minha substança / Eu subo até no espaço.

 

Quero é sê feliz agora / Morá onde você mora / Andá pelo mundo afora / E a minha vida gozá, / Entre nós não há desorde / Basta que você concorde / Nós se junta com as orde / Da senhora Petrobá.

 

Tudo o alco prometia. / Queria por que queria / Na Petrobá neste dia / Houve uma festa danada / A Petrobá ordenou / Um ao outro se entregou / E o querozene chorou / Vendo a parenta amigada.

 

Porém depois de algum dia / Começou grande narquia, / O que o alco prometia / Sem sentimento negou, / Fez uma ação traiçoêra / Com a sua companhêra / Fazendo a maió sugêra / Dentro do carboradô.

 

Fez o alco uma ruína / Prometeu a  gasolina / Que seguia a diciprina / Mas não quis lhe

obedecê / Como o cabra embriagado / Descuidado e deslêxado / Dêxava tudo melado, / Agúia, bóia e giclê.

 

A gasolina falava / E a ele aconceiava,/ Mas o alco não ligava,/ Inxia o saco a zombá / Lhe respondendo, eu não ligo, / Se achá que vivê comigo / Tá sendo grande castigo / Se quêxe da Petrobá.

 

E assim ele permanece / No carro a tudo aborrece, / Se a gasolina padece / O chofé também se atrasa / Hoje o alco veve assim / Do jeito do cabra ruim / Que bebe no butiquim / E vai vomitá na casa.