TERRA É NATURÁ

TERRA É NATURÁ

Patativa do Assaré

 

http://fernandod.com.br/images/textos/TERRA%20E%20NATURA.jpgEsta terra é como o Só / Que nace todos os dia / Briando o grande, o menó / E tudo que a terra cria. / O só quilarêa os monte, / Tombém as água das fonte, / Com a sua luz amiga, / Potrege, no mesmo instante, / Do grandaião elefante / A pequenina formiga.

 

Esta terra é como a chuva, / Que vai da praia a campina, / Móia a casada, a viúva, / A véia, a moça, a menina. / Quando sangra o nevuêro, / Pra conquistá o aguacêro, / Ninguém vai fazê fuxico, / Pois a chuva tudo cobre, / Móia a tapera do pobre / E a grande casa do rico.

 

Esta terra é como a lua, / Este foco prateado / Que é do campo até a rua, / A lampa dos namorado; / Mas, mesmo ao véio cacundo, / Já com ar de moribundo / Sem amô, sem vaidade, / Esta lua cô de prata / Não lhe dêxa de sê grata; / Lhe manda quilaridade.

 

Esta terra é como o vento, / O vento que, por capricho / Assopra, às vez, um momento, / Brando, fazendo cuchicho. / Ôtras vez, vira o capêta, / Vai fazendo piruêta, / Roncando com desatino, / Levando tudo de móio / Jogando arguêro nos óio / Do grande e do pequenino.

 

Se o orguiôso podesse / Com seu rancô desmedido, / Tarvez até já tivesse / Este vento repartido, / Ficando com a viração / Dando ao pobre o furacão; / Pois sei que ele tem vontade / E acha mesmo que percisa / Gozá de frescô da brisa, / Dando ao pobre a tempestade.

 

Pois o vento, o só, a lua, / A chuva e a terra também, / Tudo é coisa minha e sua, / Seu dotô conhece bem. / Pra se sabê disso tudo / Ninguém precisa de istudo; / Eu, sem escrevê nem lê, / Conheço desta verdade, / Seu dotô, tenha bondade / De uvi o que vô dizê.

 

Não invejo o seu tesôro, / Sua mala de dinhêro / A sua prata, o seu oro / O seu boi, o seu carnêro / Seu repôso, seu recreio, / Seu bom carro de passeio, / Sua casa de morá / E a sua loja surtida, / O que quero nesta vida / É terra pra trabaiá.

 

Iscute o que tô dizendo, / Seu dotô, seu coroné: / De fome tão padecendo / Meus fio e minha muié. / Sem briga, questão nem guerra, / Meça desta grande terra / Umas tarefa pra eu! / Tenha pena do agregado / Não me dêxe deserdado / Daquilo que Deus me deu.