CORDEL - Catulo da Paixão Cearense - RESPOSTA DO JECA TATU

RESPOSTA DO JECA TATU

Catulo da Paixão Cearense

 

http://fernandod.com.br/images/textos/RESPOSTA%20DO%20JECA%20TATU%201.jpgEu sou o Jeca Tatu.

 

Vancê só sabe de lezes / Que se faz com as duas mão. / Mas porém num sabe as lezes / Da natureza, e que Deus / Fez pra nóis com o coração.

 

Vassuncê é um senadô, / É um conseiêro, é um dotô, / É mais que um imperadô, / É o mais grande cirdadão / Mas porém eu lhe garanto / Que nada disso seria / Naquelas mata bravia / Das terra do meu sertão.

 

A miséra, sêo doto / Também a gente consola. / O orguio é que mata a gente. / Vancê qué ser Presidente / E eu sou quero ser rocêro / E tocadô de viola

 

Vancê tem todo o direito / De ganhá cem mir pru dia / Pra mió podê fala. / Mas porém o que num póde / É a inguinorância insurtá. / A gente, sêo conseiêro / Tá cansada de isperá.

 

Vancê diz que a gente véve / Com a mão no queixo, assentado / Sem fazê causo das coisa / Que vancê diz no senado. / E vassuncê tem razão. / Se nóis tudo é anarfabéto / Cumé que a gente vai lê / Toda aquela falação ?

 

Preguiçoso ? madracêro ? / Não sinhô, sêo conseiêro./ É pruquê vancê num sabe / O que seje um boiadêro / Criá cum tanto cuidado / Cum tanto amô e alegria / Umas cabeça de gado / E despois , a impedemia / Carregá tudo com os diabo / Em meno de quatro dia.

 

É pruquê vancê num sabe / O trabaio desgraçado / Qui um homi tem, sêo doto / Pra incoivará um roçado, / E quando o ouro do mio / Vai ficando embonecado / Pra gente entônce coiê. / O mio morre de sede / Pulo sor esturricado / Sequinho cumo vancê.

 

É pruquê vancê num sabe / Quanto é duro um pai sofrê / Vendo seu fio crescendo / Dizendo sempre...papai, / Vem me ensina o A B C.

 

Pru móde a politicáia / Vancê qué que um homi sáia / Do sertão pra vim votá / Em Juaquim, Pedro ou Francisco / Quando vem a ser tudo iguá.

 

Vancê tem um casarão / Tem um jardim, uma chaca / Tem criado de casaca / E ganha tudos os dia / Quer chova quer faça sor, / Só pra falá...cem mir réis.. / Eu trabáio o ano inteiro / Somente quando Deus qué / Eu vivo do meu roçado / Me esfarfano cumo um burro / Pra sustentá oito fio, / Minha mãe. minha muié.

 

Eu drumo im riba de um couro / Numa casa de sapé./ Vancê tem seu otromóve, / Eu pra vim no povoado / Ando dez légua de pé.


http://fernandod.com.br/images/textos/RESPOSTA%20DO%20HECA%20TATU.jpgO sór teve tão ardente / Lá pras banda do sertão / Que em mêno de quinze dia / Perdi toda a criação. / Na semana retrasada O vento tanto ventô, / Que a páia que cobre a chóça / Foi pulos mato...avuô.

 

Minha muié ta morrendo / Só por farta de mézinha... / E pru farta de um dotô. / Minha fia que é bonita / Bunita cumo uma frô.. / Sêo dotô.. num sabe lê.. / E o Juquinha que ainda tá / Cherando memo a cuêro / E já ponteia a viola, / Se entrasse lá pruma escola / Sabia mais que vancê.

 

Preguiçoso ? Madracêro ? / Não sinhô sêo conseiêro.. / Vancê diga aos cumpanhêro / Que um cabra, o Zé das caboca / Anda cantando estes versos / Que hoje lá no sertão / Avôa de boca im boca.

 

(canta) Eu prantei a minha roça / o tatu tudo comeu / prante roça quem quizé / que o tatu hoje sou eu..

 

Vassuncê sabe onde ta / O buraco adônde véve / O tatú esfomeado ? / Tá nos palaço da corte, / Dessa porção de ricaço / Que fez aquele palaço / Cum o sangue dos desgraçado.

 

Vancêis tem rio de açude / Tem os dotô da hingena / Que é pra cuidá da saúde... / E nóis, o que é que tem ? / Arresponda / No tempo das inleição / Que é o tempo das bandaiêra / Nóis só tem uma cangáia / Pra levá toda a porquêra / Dos dotô puliticáia.

 

Vancê qué ser presidente ? / Apois seja, meu patrão. / A nossa terra, o Brasí / Já tem muita intiligência, / Muito homi de sabença / Que só dá pra espertaião. / Leva o diabo a falação. / Pra sarvá o mundo inteiro / Abasta ter coração.

 

Prôs homi de intiligência / Trago cumigo esta figa / ---Esses homi tem cabeça, / mas porém o que é mais grande / do que a cabeça ..é a barriga.

 

Sêo conseiêro...um consêio. / Dêxe toda a birbotéca / Dos livro...e se um dia vancê quizé / Passá uns dia de fome / De fome e tarveis de sede, / E drumí lá numa rêde / Numa casa de sapé, / Vá passá comigo uns tempo / Nos mato do meu sertão, / Que eu hei de lhe abrir as porta / Da choça e do coração.

 

Eu vorto pros matagá, / Mas porém oiça premero:

 

Vancê pode