JURI, O
Pompílio Diniz
Num há, no mundo, home mole / Dêsse ditado num isqueça: / “Quem cum muntas peda bole / Uma lhe quebra a cabeça!” / “Boa rumaria faz / Quem em casa fica im paz” / Pra qui nada lhe aconteça...
Veja bem: im Conceição, / Havia um cabra valente / Qui tinha pur profissão / Batê im cara de gente / Brigava cum cinco ou seis / Cum ele num tinha vez / Nem respeitava ambiente!
Zé de Soiza, onde chegava, / O povo todo curria / Delegado se trancava / E a puliça se iscondia / Inté os Santo do artá / Quando via ele passa / Fechando o zói se binzia
Ao contráro desse home, / Tombem tinha em Cunceição / O cabôco Zé Girome / Vagaroso e moleirão. / Pois arrepare Dotô: / Foi Girome quem matô / Zé de Soiza, o valentão
Dispois foi preso e jurgado / Pelo Juiz de dereito / Qui tombem é delegado / Cum ixercíço de prefeito... / É ele em nossa cidade / Um home de otoridade / E o qui fizé ta bem feito!
No dia do jurgamento / O pessuá se ajuntô / Pra iscuitar os dipuimento, / Pra vê Girome depô / Lá pru meio da odiênça / O Juiz pidiu licença / E a Girome preguntô:
- Foi voimicê quem mato / O difunto qui morreu? / E Girome arrespostô / - Mas seu Juiz quem sou eu!... / Zé de Soiza era um bandido / E voimecê tá isquicido / Da surra qui ele lhe deu?!...
O Juiz se istremeceu / E adispois tornô falá: / - Você responda pra eu / Somente o qui eu preguntá / E num foi surra nhôr não, / Foi somente uns impurrão / E pode cuntinuá
- Pois eu só dixe: ô seu coisa! / E o finado respondeu: / - O meu nome é Zé de Soiza, - Qui é qui ocê qué cum eu? / - Eu só quero qui seu Zé / Pru favô tire o seu pé / Qui ta pru riba do meu!...
Vosmicê ta machucano / Os calinho do meu dedo!... / Ele entonce foi me oiano / Cum cara de fazê medo / E falô assim pra eu: / - Se quizé qui tire o seu,/ O meu num tiro tão cedo!
- Nesse momento, dotô / Somente pra num brigá / Imbora sintino a dô / Eu dexêi ele pisá / Dispois afastei o pé, / Foi quando o finado Zé / Caiu sem eu lhe impurrá!...
Seu juiz vá curiano: / Nessa merma ocasião / Eu tava as unha cortano / Cum a pexerinha na mão / Cuma o finado num viu / Pruriba dela caiu / Num tive curpa Nhor, não!
Sabe o dotô cuma é: / Metê mão no pé do uvido / Pisa nos calo do pé / Divia sê pruibido... / É pru mode essas bestêra / Qui pru riba da pexêra / Muita gente tem caído.
Quando o finado caiu / Foi liquidado o assunto... / O povo fez qui num viu / Mas cuma eu tava ali junto / Fui logo acendeno a vela / E ele isticano a canela / Num instante virô difunto
Pregunto agora ao dotô / Quem foi qui fez labacé / Quem nos meus calo pisô / Não foi o finado Zé? / A pexêra fez o resto... / Eu cuma sô home honesto / Apena afastei o pé!
Entonce o juiz falô: / Dispois do réu se calá / - Pelos carcos qui eu já fiz, / Vou Zé Girome sortá... / Cuma a lei é justicêra, / Vou condena a pexêra / Qui na prisão vai ficá!