DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Leio hoje nos jornais (07/12/06) que Angélica Aparecida Souza, de 19 anos de idade, foi condenada pela justiça (com minúscula, mesmo) de São Paulo a quatro (4) anos de prisão em regime semi-aberto, isso porque roubou um pote de 200 gramas de manteiga. O “crime” aconteceu em novembro do ano passado, e por causa dele a jovem permaneceu detida durante 128 dias no Cadeião de Pinheiros, período em que seus quatro pedidos de liberdade provisória foram recusados pelos juízes (?) que os examinaram. A advogado da moça recorreu ao Superior Tribunal de Justiça alegando que ela não tinha antecedentes criminais, e depois de quatro meses a "criminosa" finalmente foi libertada.
Sinceramente, não sei o que dizer. O confronto entre a situação vivida por essa infeliz desfavorecida da sorte - pois não tem dinheiro -, com a dos pilantras que enriqueceram em quatro anos porque “meteram a mão” no meu, no seu, no nosso suado dinheirinho, é para deixar mudo o mais falante dos mortais. Lembro-me que há pouco tempo, quando alguns dos quarenta ladrões que todos nós conhecemos, compareceram com cara sonsa às sessões da CPI da Câmara para depor sobre a roubalheira que haviam praticado, nós, cidadãos que sustentamos essa nação tão necessitada de gente decente, nos vimos forçados a assistir à opera bufa que o desembargador de plantão havia composto no momento em que concedeu a esses homens (?) o privilégio de não dar resposta aos representantes de um dos três poderes da nação. Em outras palavras, o negócio aqui no Brasil chegou àquele ponto em que você aponta para o sem-vergonha e acusa: “- safado!” -, e ele responde na maior cara de pau: “- E daí? Tenho habeas-corpus!”... E ainda por cima lhe processa por danos morais.
No dia de hoje o noticiário da tevê também informou ao público omisso e desinteressado, que o último dos quadrilheiros envolvidos com o mensalão, o tal que recebeu quatro milhões de reais, mas jura de pés juntos que não sabe de nada, foi absolvido pelos seus companheiros do legislativo (com minúscula, mesmo), selando assim, de forma vergonhosa, o ciclo legislativo do mais ordinário grupo de congressistas que já pisou naquele reduto de aproveitadores inconseqüentes. Meu compadre João pergunta aqui em meu ouvido se eu não tenho medo de escrever essas coisas, e eu lhe respondo que não, porque elas apareceram durante meses em páginas e mais páginas dos jornais e revistas vendidos do Oiapoque ao Chuí, o que significa dizer que não estou publicando novidade nenhuma, a não ser, quem sabe, para os irresponsáveis que reelegeram os vigaristas do voto. Vigaristas, sim, porque esses homens reconduzidos às benesses da corte, são estelionatários eleitorais, protagonistas de um conto do vigário semelhante ao do sujeito que entrou em um quintal, furtou um leitão, colocou-o dentro de um saco que jogou por cima do ombro, e quando foi apanhado pela polícia mais adiante, e esta lhe mostrou que a prova do crime estava bem ali, nas suas costas, ele começou a gritar: tira esse bicho daí!... tira esse bicho daí!...
Se bem que, no nosso caso, o refrão é outro: eu não sabia... eu não sabia...
Mas o meu amigo permanece preocupado e me alerta sobre o perigo escondido por trás daquele velho pensamento de que quem fala a verdade não merece castigo. E pergunta se eu já ouvi falar de Pasárgada; respondo que sim; ele investe outra vez, indagando se sou amigo do rei; respondo que não; e o compadre João conclui: “então você vai acabar se ferrando”. Será?
Pelo sim, pelo não, prefiro ficar em paz com a minha consciência. Sei que não sou uma voz solitária a clamar no deserto, e por isso manifesto minha indignação contra esse estado de sordidez administrativa em que nos vamos atolando mais e mais. Como é mesmo a história? No ano passado ocupamos a penúltima posição quanto ao crescimento do Produto Interno Bruto nas Américas, ficando à frente apenas do Haiti, um país em estado de miserabilidade, enfraquecido pela luta fratricida e sem nenhuma perspectiva de melhoria a curto ou médio prazo. No que está chegando ao fim talvez não consigamos nem isso, pois institutos econômicos já divulgaram a informação de que o crescimento do PIB ficara pouco acima dos 2,5%, o que provavelmente é uma previsão otimista. Apesar disso, os homens continuam soltando foguetes...
Isso me faz lembrar da história da hiena. Um professor, falando sobre ela aos seus alunos, explicou que esse animal possuía três características curiosas: mantinha relação sexual apenas uma vez por ano, comia suas próprias fezes e emitia um som extremamente semelhante a uma risada. No que um dos ouvintes perguntou: - professor... um animal que trepa uma vez por ano e come merda... ri de quê?
E nós? Estamos rindo de quê?
07/12/2006