MATURO OU MADURO?
Diz o meu compadre João que o pé de alface mais bonito cresce sempre na horta do vizinho. Não sei se isso é verdade, pois nunca me preocupei em comparar minhas hortaliças com as que os outros estão produzindo. A lição que aprendi durante meus longos anos de vida, foi a de que se as pessoas não se ocuparem com aquilo que lhes diz respeito, se elas não se interessarem pelo que fazem, se não colocarem um pouco de amor no desempenho de suas atividades, sejam quais forem, então, realmente, tudo na casa ao lado vai lhes parecer mais viçoso e atraente.
Essa é uma regra simples que nos permite compreender, sem muito esforço, a existência do bom e do mal profissional, desde o mais humilde dos varredores de rua, até o mais pernóstico dos cientistas; desde o mais desconhecido dos desconhecidos que vagam pelo mundo, até o mais falado dos indivíduos que costumam ser notícia na imprensa. E como nos habituamos a dar muita importância à aparência do bolo, sem maiores preocupações com a qualidade da massa, somos o que somos: um país paupérrimo em lideranças, porque as que existem estão bem mais preocupadas com as vaidades pessoais e interesses das panelinhas que os cercam, que propriamente com as necessidades de seus seguidores inconseqüentes, porque os colocam aonde eles nunca deveriam ter chegado.
Vocês já repararam que os donos das rédeas, ou seja, aqueles que mantém nas mãos o destino de milhões e milhões de cumpridores dos deveres e obrigações legais que assoberbam os brasileiros, são os mesmos de dezenas de anos atrás? Vocês já perceberam que à sua direita, no centro, à sua esquerda, por cima e por baixo, os artistas que lhes dizem o que pensar e o que fazer, estão em cartaz há dezenas de anos, desempenhando durante todo esse tempo o mesmo papel voltado muito mais para o monólogo que para o diálogo? Vocês já repararam como é enorme o número dos que criticam ferozmente a problemática, mas, no entanto, não dizem uma única palavra sobre a “solucionática”?
Há muitos anos, durante um almoço na cidade de São Paulo, um dos participantes reclamou que queria de volta a sua liberdade, e então eu comentei que não pensava da mesma forma. “Viajo pelo país - disse-lhe eu - e jamais fui convidado a apresentar um documento de identidade, seja em balcão de aeroporto, portaria de hotel ou qualquer outro lugar”. Ele retrucou que a liberdade a que se referia era a de poder votar em alguém que merecesse o seu apoio, e por isso eu lhe perguntei em qual eleição no Brasil ele havia votado em quem queria. Pois, pelo que me constava, o eleitor brasileiro indicava na cédula apenas o nome do personagem imposto pelo grupo que dominava a agremiação política a que ele pertencia.
Durante a luta diária que travei durante anos pela sobrevivência e bem-estar de minha família, convenci-me da veracidade de duas reflexões feitas por homens que chegaram ao degrau mais alto da fama: a de que “o sonho e a esperança são os dois calmantes que a natureza concede ao homem”, do czar Frederico I, da Rússia, e a de que “o tempo é o melhor autor, pois ele sempre encontra um final perfeito”, de autoria do inesquecível Charles Chaplin, o Carlitos. O que, por tabela, me leva a J.D. Salinger, um desconhecido mas sagaz conhecedor da personalidade humana, criador do ensinamento de que “o homem maturo é aquele que deseja morrer gloriosamente por uma causa, enquanto o homem maduro se contenta em viver humildemente por ela”.
Como vocês provavelmente devem saber, maturo é a mesma coisa que maduro, mas entre as muitas definições da segunda palavra podemos relacionar as de “sábio”, “experiente”, “prudente”, “circunspeto”, ou ainda as do seu emprego como gíria, ou seja, “idiota”, “palerma” e “tolo”. Diz o meu compadre João que cabe a cada um decidir sobre a forma como prefere ser avaliado, mas eu vou um pouco mais longe quando penso que o problema maior é saber de que maneira podemos avaliar os outros, principalmente nessa época pré-eleitoral em que as mensagens que os candidatos nos impõem pela telinha da tevê, irritam a nossa paciência porque não dizem nada de novo
Por isso, eu não perco a esperança de que um dia o povo do meu país saiba o que fazer para deixar de lado os tolos, porque deles nada de bom se pode esperar, colocando em seu lugar os sábios, pois esses sim, poderão nos conduzir pelo caminho da ordem e do progresso. Assim como também espero que o tempo finalmente se dê conta de que já é hora de clarear o ambiente, arrumando um final feliz para o dramalhão em que se transformou a vida do cidadão de bem da minha terra, esse pobre coitado que trabalha quase seis meses em cada ano para abastecer com o dinheiro dos impostos que paga direta ou indiretamente, a máquina que o transformou em refém de tudo o que não presta.
Enquanto muitos brasileiros, acertada ou erradamente, morreram pela causa que defendiam, ficamos sabendo que 155 oportunistas arrumaram um jeitinho de incluir seus nomes na lista dos chamados anistiados e por isso têm a receber do governo, a título de indenização, o montante de 234,790 milhões, embora já estejam embolsando mensalmente aposentadorias que variam de 7 a 19 mil reais. É de 37.827 o total de casos julgados e processos a julgar, envolvendo uma cifra bruta de 4.547 bilhões, situação tão espantosa que o deputado Carlito Mers (PT-SC) defende a suspensão desses pagamentos e a revisão das quantias mais elevadas, por considerar “ser uma distorção pagar valores altos a quem não teve, na luta contra a ditadura, o envolvimento de quem foi torturado ou morreu”.
Como se vê, a horta desse pessoal está cada vez mais viçosa e bonita, enquanto a minha vai murchando a cada ano que passa. Daí a pergunta que faço: até quando vamos continuar adubando o canteiro desses privilegiados, que transformaram o pé de alface lembrado pelo meu compadre em símbolo de um banquete financeiro sem precedentes na história política do Brasil?