QUE É FILIPETA, O?
São poucos os que sabem o que vem a ser uma filipeta. É um pedaço de papel impresso dos dois lados, que as gráficas responsáveis pela sua impressão consideram como sendo um dos meios de divulgação mais comuns, eficazes e versáteis. Através da sua distribuição é possível propagar eventos, serviços e produtos de forma direta para o público em geral, e também oferecer uma contrapartida ao cliente em potencial, como descontos ou brindes mediante sua apresentação.
A enciclopédia livre Wikipédia a define como um termo usado atualmente no Brasil para designar pequenos folhetos publicitários (como o da ilustração ao lado), cuja função é a de anunciar e promover espetáculos, serviços ou instruções, numa ampla gama de aplicações. Eles são impressos geralmente em ambos os lados, e visam atingir um público determinado, visto que são distribuídos com objetivo de incentivar o comparecimento de determinada camada da população ao evento anunciado.
Avançando na definição da palavra, a Wikipédia explica que “originalmente o nome ‘filipeta’ referia-se a notas promissórias ou letras de câmbio sem liquidez, ou seja, sem valor econômico algum e distribuídas indiscriminadamente nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Seu nome tem origem num capitão do Exército de nome Felipe, envolvido no escândalo da emissão de títulos financeiros falsos na década de 50”. A mesma versão é dada pelo novo dicionário Houaiss. Comentando tal obra, o professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, diz que “Outro ponto relevante do Houaiss é o fato de muitas vezes abandonar o campo do dicionário de língua e ir além, ingressando no enciclopedismo. No verbete 'filipeta', por exemplo, Houaiss não se contenta em defini-lo como 'promissória fraudulenta'. Vai além, conta o crime e indica o criminoso, Felipe, um capitão da reserva do Exército que nos anos 50 aplicou um golpe no mercado financeiro".
Como sou contemporâneo dessa história curiosa, permito-me tecer algumas considerações a respeito do acontecido. Se não me falha a memória, o Felipe em questão era coronel da Aeronáutica, e não capitão do Exército, e tinha escritório montado na rua México, região central do Rio. Na época eu era funcionário de um banco instalado ali por perto, e lembro-me dos comentários feitos sobre o esquema bolado pelo militar para enriquecer depressa e sem esforço.
Seu plano consistia em tomar dinheiro a juros de quem se dispusesse a emprestá-lo, e aplicar o numerário em negócios diversificados, valendo-se da receita que eles proporcionariam para pagar os rendimentos mensais devidos aos investidores, e amortizar o principal. Resumindo, o objetivo do oficial, a médio e longo prazo, era o de se transformar em empresário rico, sem empatar um único tostão de capital próprio.
Mas o golpe falhou não sei por que nem onde. O coronel começou a atrasar alguns pagamentos, alguém não gostou e o denunciou à polícia, a imprensa deu a notícia, e daí em diante um punhado de gente tratou de procurar depressa a delegacia encarregada da investigação, na tentativa de salvar o seu. Desse fato verídico restou o neologismo filipeta, usado durante algum tempo para nomear qualquer tipo de trambique financeiro praticado por qualquer espertalhão.
Somente agora, ao pesquisar o assunto na tentativa de reavivar a memória, foi que tomei conhecimento de que hoje a palavra é empregada para designar folhetos publicitários. O diretor de teatro Emílio Fontana, ao falar sobre sua carreira profissional, informa que “Eu e meu grupo visitamos principalmente os sindicatos e distribuíamos convites em grande quantidade, meio que mais tarde se denominaria filipeta. Plínio Marcos, em seus escritos, me aponta como o criador da expressão”.
Plínio Marcos, autor de peças teatrais famosas como “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, de 1966, “Navalha na Carne”, de1967, e “O Abajur Lilás”, de 1969, entre muitas outras, era um escritor irreverente que produzia frases espirituosas. Tais como “Para essa gente, os gurus do sistema, o passado é um exemplo, o futuro é uma esperança, e o presente um pé no saco”.
Esse episódio tão antigo me veio à mente em decorrência de um fato acontecido há pouco tempo. Em 2005 eu ingressei em um plano de capitalização oferecido por determinado estabelecimento bancário, comprometendo-me a pagar 20 reais por mês durante um ano. Ao final desse período, recebi de volta 200 reais, ao invés de 240. Esse foi o meu prejuízo, que na outra ponta representa o lucro do banco.
Se avaliado isoladamente, ele não representa coisa alguma para a instituição de crédito. Mas quando multiplicado por milhares, ou dezenas de milhares de clientes, com o total sendo depois acrescido aos ganhos advindos do aluguel do dinheiro entregue mensalmente aos banqueiros, a troco de nada, acaba se transformando em uma montanha de cédulas que é para ninguém botar defeito. Por essas e outras é que o Banco do Brasil lucrou 2.343 bi no 1º trimestre deste ano, ganhando do Bradesco (1.530 bi) e Itaú (1.460 bi).
O plano bancário de capitalização é muito bonito, realmente. Só que para os clientes ele deveria ser acrescido do prefixo “des”, que indica depreciação, porque, na verdade, ao invés de ganhar, eu perdi quase vinte por cento do meu capital. Não sei não, mas tenho a impressão de que se fosse nos dias de hoje, o coronel, ou capitão Felipe, faria um sucesso danado como administrador de qualquer banco do meu país. E se algum dos meus leitores souber de qualquer coisa a respeito do referido cidadão, por favor, me informe, para que eu possa atualizar minhas informações.
16/05/2006