ROMANCE DE LUZIA-HOMEM

ROMANCE DE LUZIA-HOMEM

Arievaldo Viana Lima

 

http://fernandod.com.br/images/textos/ROMANCE%20DE%20LUZIA%20HOMEM.pngSeca de setenta e sete / Estranho e terrível mal / O século é dezenove / E o cenário é Sobral / Sob um sol causticante / Vemos uma retirante / Lá no morro do curral. / O seu talhe é esbelto / E o rosto muito bonito / Possui o braço mais forte / Nesse cenário maldito / Canseiras não a consomem / Lhe chamam Luzia-Homem / Pelo seu jeito esquisito.

 

O seu pai era vaqueiro / Na fazenda Ipueira / Por não ter um filho homem / Transformou-a em vaqueira / Nas lidas do dia-a-dia / E a fama de Luzia / Corria aquela ribeira. / O pai morreu, veio a seca / Mudou então seu destino / Tornou-se uma retirante / Grão de areia pequenino / No mar da vida jogado… / Só dois amigos a seu lado / Eram Alexandre e Raulino.

 

Alexandre, moço fino / Fora um dia fazendeiro / E por amor a Luzia / Tornou-se um bom companheiro / Do outro o que se conta / É que foi salvo da ponta / De um touro traiçoeiro. / Raulino Uchôa, o vaqueiro / Era forte e destemido / Quis pegar um touro à unha / Milagre, não ter morrido / Por ironia do destino / Foi o valente Raulino / Por Luzia socorrido.

 

Agora vamos falar / Da heroína Luzia / Em um casebre afastado / Com a sua mãe vivia / Dona Zefinha doente / Tinha uma asma inclemente / Que aos poucos lhe consumia. / Rumavam as duas peregrinas / Com destino ao litoral / Mas o caminho puxado / Agravou da velha o mal / A pobre mal se arrastava / Por ela, Luzia estava, / Contra a vontade, em Sobral.

 

Na sua lida diária / Batalhava pelo pão / Mas por ser forte e arredia / Sofria discriminação / Cercada por inimigos / Somente seus dois amigos / Inda lhe davam atenção. / Lá no morro do curral / Tinha um soldado metido / Era um tal de Crapiúna / Sujeito vil, enxerido / Que sempre a perseguia / Se aproximou de Luzia / Visando tirar partido.

 

Rejeitado com veemência / Não se dava por vencido / Dia a dia foi ficando / Mais ousado e atrevido / Sempre, sempre a lhe cercar / Vivia a se lamentar / Por ser dela preterido. / Vendo então que Alexandre / Era de fato um rival / O soldado Crapiúna / Pensava em fazer-lhe o mal / Mas Alexandre, direito, / Aumentava seu conceito / Na cidade de Sobral.

 

Conquistou a confiança / Por ser um homem de bem / E tinha em seu poder / As chaves de um armazém / Foi a sua perdição / Porque da vil traição / Não está livre ninguém. / Na porta desse armazém / Os pobres aglomerados / Recebiam um quinhão / Dos mantimentos guardados / O socorro federal / Que diminuía o mal / Daqueles pobres coitados.

 

Um dia em que Alexandre / Foi ver Zefinha e Luzia / Perguntou à bela jovem / Se com ele casaria / Deu-lhe uma flor perfumada / Sem saber que na cilada / Do soldado cairia. / Pois quando se retirou / Da casa de sua amada / Encontrou no armazém / Uma multidão formada / Lhe acusando de ladrão / Não adiantou então / A inocência protestada.

 

Terezinha, a única amiga / Que Luzia-Homem tinha / Foi correndo avisá-la / Dessa desgraça mesquinha. / Ela a notícia escutando / Correu depressa, deixando / Sua mãe com Terezinha. / Chegando ali se prostrou / Aos pés da autoridade / E defendeu Alexandre / Com tanta sinceridade / Que até mesmo o promotor / Viu que acima do amor / Estava ali a verdade.

 

Porém a justiça é cega / E lenta em seu caminhar / Nisto chegou Crapiúna / E pôs-se dela a zombar / Mas ela tinha guardado / Uma carta onde o safado / Prometia se vingar… / Luzia pega a tal carta / Mostra ao promotor então / Crapiúna com cinismo / Se livra da acusação / Saiu contente o soldado / E Alexandre foi levado / Às grades da detenção.

 

Luzia seguiu pra casa / Bastante contrariada / Terezinha então lembrou / De uma velha afamada / Que sabia adivinhar / Mas precisava levar / A quantia estipulada. / Responso de Santo Antônio / A poderosa oração / Que para as pessoas cultas / Não passa de um abusão / Pra muitos funcionava / Era o que a velha usava / Para descobrir ladrão

 

No entanto, Terezinha / Viu uma cena confusa / Mais pareciam ciganos / Da velha terra andaluza / Na cena também foi vendo / O papangu mais horrendo / Numa careta disfusa. / Luzia todos os dias / Com muita dedicação / Levava para Alexandre / O de comer, na prisão. / Porém, uma certa vez / O seu amado lhe fez / Estranha revelação.

 

Contou que uma tal Gabrina / Moça a quem ele ajudara / Viera a promotoria / E um falso lhe imputara / Mostrou cortes de fazenda / Um par de brincos, outra prenda / Disse que dele ganhara. / Mordida pelo ciúme / Luzia se retirou / E a partir daquele dia / À prisão não mais voltou. / Terezinha, por seu lado / Seguindo o torpe soldado / Todo o crime desvendou.

 

Pois ela viu Crapiúna / Um baú desenterrar / E de dentro dessa arca / Grande quantia tirar / Separou ele uma nota / E reuniu-se à patota / Para beber e jogar. / Terezinha correu célere / Foi dizer ao delegado / E Crapiúna foi preso / Depois do crime apurado / Soltaram o réu inocente / E ali no mesmo ambiente / Deixaram preso o soldado.

 

Alexandre resolveu / Ir morar noutra parada / Levando os seus amigos / Dona Zefinha e a amada / Partiu na frente sozinho / Pra arranjar com carinho / Sua futura morada. / Luzia seguiu depois / Com Dona Zefa e Raulino / Mas vejam a negra cilada / Que preparou-lhe o destino / Pois Crapiúna fugiu / E de perto a seguiu / Com seu instinto assassino.

 

Achando-a só um instante / Tratou de lhe agarrar / Chamando por Alexandre / Pôs-se Luzia a gritar / Travou-se a luta mortal / E aquele bruto animal / Entendeu de lhe matar. / Defendendo sua honra / Luzia ainda lutou / Com suas unhas um olho / De Crapiúna arrancou / E tombou morta em seguida / A sua amada sem vida / Pobre Alexandre encontrou.