1686 - GUERRA DOS BÁRBAROS - Guerra do Açu

1686 - GUERRA DOS BÁRBAROS, A

Guerra do Açú

 

http://fernandod.com.br/images/textos/GUERRA%20DOS%20BARBAROS%201.jpgBandeirantes foram os sertanistas do Brasil Colonial que a partir do início do século 16 penetraram nos sertões brasileiros em busca de riquezas minerais, de indígenas para escravização, ou do extermínio de quilombos.

 

Entre 1671 e 1674, alguns deles passaram a cruzar o sertão nordestino com esses objetivos. Na época, os colonizadores portugueses já haviam implantado a cultura açucareira na região litorânea, e por isso criadores de gado voltaram sua atenção para o interior. Sua chegada revoltou os indígenas e deu início a uma guerra prolongada. As tribos lutavam quase sempre sozinhas, o que agradava os portugueses porque  manutenção do conflito por período maior de tempo faria com que os naturais da terra fossem sendo exterminados aos poucos.

 

Em 1685 os índios janduís, do grupo lingüístico dos cariris, viviam na região do Seridó, nos atuais estados do Rio Grande do Norte e Paraíba, e demonstravam descontentamento com a chegada dos colonizadores. Essa insatisfação agravou-se em 1685, quando eles passaram a atacar e matar tanto vaqueiros como gado e plantadores, avançando rumo à capital e alcançando Ceará-Mirim, próximo a Natal. Alguns reforços foram enviados para acudi-los, e posteriormente uma tropa liderada por Domingos Jorge Velho, considerado um dos bandeirantes mais ativos. Mas sem resultado porque os soldados não estavam sendo pagos, passavam fome e por esse motivo desertavam. Os que ficavam “estavam obstruídos pela displicência, indiferença, descaso e ignorância, os pecados dos desinteresses que a distância multiplica”, segundo o historiador Câmara Cascudo. Por isso a guerra não terminou, permanecendo viva, embora esporádica, graças à ambição e crueldade de determinados colonos que almejavam as terras dos nativos, mesmo que para isso fosse preciso exterminá-los.

 

Um ano antes, em 04 de julho de 1684, D. António Luís de Sousa Teles de Meneses, futuro Marquês das Minas, fora empossado governador e capitão-general do Brasil, na Bahia. Mas apesar de seu apelo no sentido de que o conflito com os janduis fosse encerrado, os bandeirantes paulistas não o atenderam. Tanto que no início de 1687 um exército de 3 mil homens comandados por Antônio Albuquerque, partiu de Pernambuco com a missão de colocar ponto final na guerra. Chegando ao Rio Grande do Norte esses homens foram surpreendidos por um ataque dos janduís e povos aliados, sendo obrigados a buscar refúgio na Fortaleza de Açu.

 

http://fernandod.com.br/images/textos/GUERRA%20DOS%20BARBAROS%202.jpgNova tentativa foi feita no ano seguinte. Manoel Soares, um sertanista de oitenta anos, liderava duzentos soldados, cem negros de um batalhão militar e quatrocentos índios. Uma segunda frente era comandada por Matias Cardoso, bandeirante paulista que se tornara fazendeiro na Bahia, ajudado por índios potiguares do Rio Grande do Norte. E a terceira frente dirigida por Domingos Jorge Velho, que, antes de atacar o Quilombo dos Palmares deveria dar sua contribuição à guerra.

 

Contudo, o plano não funcionou. Matias Cardoso abandonou a empreitada por não concordar com o baixo pagamento. No batalhão de Manoel Soares, quase todos os soldados desertaram. Somente Domingos Jorge Velho, com seiscentos índios e mamelucos, enfrentou os janduís no final de julho de 1688, numa batalha que durou quatro dias, mas da qual teve que se retirar para a Fortaleza do Açu, por falta de munição.

 

Nos dois anos seguintes os Janduís e aliados mantiveram o a situação sob controle. Em 1690, Matias Cardoso assumiu o comando geral das operações, mas seu batalhão foi quase aniquilado, Com pouca munição ele refugiou-se no Ceará, de onde voltou com sua gente para Natal, que estava sendo atacada por outros grupos indígenas do sertão. Nessa altura dos acontecimentos, Antônio de Albuquerque reassumiu o comando da guerra, chegando com trezentos cavaleiros e muita munição. A partir daí a sorte começou a mudar para os janduís, que perderam muitos guerreiros numa só batalha: 230 deles foram abatidos.. Mais adiante, no final de 1691, o grande cacique Canindé, um de seus principais chefes, foi aprisionado durante luta sangrenta,.

 

Cansados e abatidos, os indígenas propuseram  “uma paz perpétua para que sua nação e os portugueses pudessem viver em paz”. Que foi aceita pelo governador Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho (1638-1702), esperando que “os 14 mil janduís das 22 aldeias da região, se tornassem cristãos e leais súditos de Sua Majestade”. No dia 10 de abril de 1692, diante de dois caciques, setenta líderes indígenas e autoridades portuguesas, foi assinado um tratado de paz. "entre o muy poderoso Senhor Dom Pedro I, por mercê de Deus, rei de Portugal e Algarves, e Canindé, rei dos Janduí".

 

Na oportunidade, Canindé prometeu que ele e seus descendentes seriam "humildes vassalos de Sua Majestade"; que aceitariam o batismo cristão e cederiam 5 mil guerreiros para o serviço dos portugueses. Em troca receberiam dez léguas em quadra ao redor de suas aldeias e a promessa de proteção dos portugueses, em caso de ataque dos paulistas ou de outros indígenas.

 

Esse tratado durou pouco tempo. Dois anos depois o novo governador ordenou expedições de extermínio contra os indígenas. Passados três anos, Bernardo Vieira de Melo, sertanista e administrador colonial, relatava ao rei português que havia reduzido "com tão bom êxito todos os pagãos à paz universal". À paz de cemitério, evidentemente. Mas a guerra ainda não havia terminado. Em 1715, o governador de Pernambuco determinava a sua continuação, "para que assim ou se extingam estes bárbaros ou se afugentem de nós tanto que vos fique livre o uso da terra ..."..

 

 Depois de 1720 não houve, realmente, mais nenhum registro de sublevação por parte dos janduís.