1574 – MASSACRE DE TRACUNHAEM
O município de Tracunhaém (de lo-calização indicada na ilustração ao lado), tem seu nome inscrito na história brasileira como sendo a razão principal que despertou o inte-resse dos colonizadores pela explo-ração do litoral que se estendia na direção norte, para além do território pernambucano O massacre acontecido naquela região, um dos maiores ataques a colonos feitos por nativos que ameaçavam não só a capitania de Itamaracá, mas também o nordeste da capitania de Pernambuco e a própria vila de Olinda, a mais rica e próspera da América portuguesa, assustou os colonos do Brasil e à corte de D. Sebastião, o jovem rei de Portugal.
A capitania de Itamaracá era uma das quinze divisões originais do território brasileiro entregues a donatários em regime de hereditariedade. Doada em 1534 a Pero Lopes de Sousa, possuía um território que se estendia da linha imaginária de Tordesilhas até a costa, tendo como limites a Baía da Traição (na Paraíba), ao norte, e Igarassu (no litoral norte de Pernambuco). Com a morte do seu donatário, ocorrida um ano após ter recebido as terras, elas voltaram ao patrimônio da Coroa, tornaram-se devolutas e frequentadas por franceses que buscavam o pau-brasil, e indios da tribo potiguar, seus aliados e inimigos dos portugueses.
Nessas terras corre o rio Tracunhaem.. Foi ele que deu nome ao trágico episódio que ficou conhecido como Massacre, Chacina ou Tragédia de Tracunhaem. Revela a história que um mameluco (filho de branco com índia) vindo de Olinda, dono de espírito aventureiro, achou por bem raptar de uma aldeia potiguara certa jovem e bela índia que o encantara, para tê-la como esposa. Essa aldeia ficava na parte norte da atual Paraíba, região da Serra da Copaoba, antiga denominação do Planalto da Borborema, e os índios que a ela pertenciam mantinham relacionamento amistoso com os brancos, negociando com eles o que fosse de interesse das partes envolvidas.
A jovem índia raptada chamava-se Iratembé e era filha de Ininguaçu, o chefe daquele aldeamento. Ele se encontrava ausente no dia do rapto, mas ao regressar e tomar conheci-mento do acontecido, não hesutou: mandou que dois de seus filhos fossem imediatamente para Olinda e de lá trouxessem a irmã. Ao chegarem à cidade os indígenas procederam como o pai lhes havia orientado: procuraram as autorida-des, e por sorte encontraram.o desembarfador Antonio Salema, governador do Rio de Janeiro, que inteirado dos fatos ordenou que a índia fosse resgatada e devolvida aos irmãos, dando-lhes, ainda, provisões para que se alimentassem no caminho de volta. . .
Foi o que eles imediatamente começaram a percorrer. Chegando a Tracunhaém, os três filhos de Ininguaçú decidiram pernoitar no engenho de Diogo Dias, situado no vale do rio Tracunhaem. Encantado com a moça, este a sequestrou durante a noite e a escondêu dos irmãos, que sem outro recurso retornaram à aldeia paterna e relataram o que se havia passado.
Confiando inicialmente na negociação, Ininguaçú envou emissários (não se sabe quantos) para tentar recuperar a filha, mas Dias os enganou com palavras. Até que as seguidas dissimulações cansaram o cacique, que resolveu agir e recuperar Iratembé a qualquer preço, inclusive ‘quebrando a paz. Para tanto, milhares de índios cami-nharam com ele rumo a Tracunhaém, onde chegaram no meio da madrugada. Mas aguardaram o alvorever para atacar os moradores do engenho. Horácio de Almeida, em sua História da Paraíba (1978), afirma que este reclame indígena talvez tenha sido fomentado pelos franceses, que por comercializarem pau-brasil com os potiguara, temiam o instinto colonizador dos portuguêses. Aliás, esta é a opinião de historiadores como Irineu Pinto (1909) e Maximiano Machado (1912).
Diogo Dias, que instalara seu fortim dentro de um cercado de pau a pique, rechaçou o pequeno grupo que o atacou inicialmente, saindo logo depois para o campo aberto em perseguição aos fugitivos. Mas caiu na armadilha preparada pelo cacique, pois foi de encontro a uma grande quantidade de índios que tinham permanecido escondidos no mato, à espreita, prontos para atacar seus inimigos e dominar a propriedade.
Cercado pelos potiguaras Diogo não teve como fugir para algum lugar seguro onde pudesse abrigar-se, sendo por isso derrotado com facilidade. Segundo Maximiano Lopes Machado, historiador paraibano, mais de 600 pessoas morreram nesse enfrentamento, entre elas índios domesticados, escravos, parentes e o próprio Diogo Dias. Sua propriedade foi saqueada e incendiada, ficando no lugar um ‘monte de ruínas como testemunho da reação violenta dos potiguaras ao agravo qie lhes fora feito.
O morticínio assustou a metrópole, que avaliou com atenção mais cuidadosa a ameaça indígena e francesa a seus domínios. Em consequência, determinou o fim de capitania de Itamaracá e criação da Capitania Real da Parahyba (no papel) e imediata conquista e domínio de suas terras. Tracunhaém mostrara ao rei lusitano o poderio nativo, e essa resposta incisiva mudou os rumos da história do Brasil.