1942 - PRISÃO DE ALEMÃES EM PERNAMBUCO

1942 – PRISÃO DE ALEMÃES EM PERNAMBUCO

 

http://fernandod.com.br/images/textos/PRISAO%20DE%20ALEMAES%20EM%20PERNAMBUCO.jpgChã de Estevam foi a denominação de uma espécie de campo de concentração que funcionou a partir de 22/11/1942, no local onde hoje está situado o município pernambucano de Araçoiaba, criado em 1995.e emancipado politicamente em 1997. Até o início do século 19 o lugar era conhecido como Chã do Monte Aratanji, e depois Chã de Estevam, mas elevado em 10/02/1920 à condição de distrito, teve seu nome mudado, e posteriormente mais duas vezes antes de receber o atual. .

 

Na década de 1940, ou simplesmente nos anos 40, a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial acarretou a prisão de alemães residentes no país. Para alojá-los foram criados nada menos que 31 dos então chamados campos de concentração, dos quais os mais importantes eram os de Tomé-Açú, no Pará; o da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro; o de Pouso Alegre, em Minas Gerais; os de Guaratinguetá e Pindamonhangaba, em São Paulo; o de Oscar Schneider, em Santa Catarina; e o de Chá de Estevam, em Pernambuco.

 

Sobre este último a Revista Veja número 1538, datada de 18 de março de 1998, publicou matéria intitulada “O inimigo Light – Pesquisa reconstitui a vida de alemães em campo de concentração de Pernambuco”, cujo texto integral está abaixo transcrito:

 

Em um trabalho para a Universidade Federal de Pernambuco, a jornalista e pesquisadora Susan Lewis, 27 anos, uma brasileira filha de judeu americano, descobriu um curioso pedaço da História do Brasil entre os documentos do Departamento da Ordem Política e Social, Dops. Cartas, telegramas e ofícios revelam que existiu em Pernambuco durante a II Guerra Mundial um campo de concentração para nazistas — o único de que se tem notícia além de dois outros no Vale do Paraíba, em São Paulo.

 

http://fernandod.com.br/images/textos/PRISAO%20DE%20ALEMAES%20EM%20PERNAMBUCO%202.gifLocalizado no município de Araçoiaba, a 60 quilômetros do Recife, o Campo Chã de Estevam foi criado em 22 de novembro de 1942 e funcionou até 1945, nas terras da Fábrica de Tecidos Paulista (ilustração acima), da família Lundgren, fundadora das Casas Pernambucanas. Ao todo, os Lundgren tinham cerca de 100 funcionários alemães e italianos, contratados para operar as máquinas importadas. Pelos documentos, sabe-se que foram confinados pelo menos trinta estrangeiros e seus familiares, incluindo suas mulheres e filhos brasileiros. O campo de concentração pernambucano, contudo, era muito diferente dos campos para judeus na Europa. Não há registro de que alguém tenha morrido ou sofrido maus-tratos por lá. Ao contrário, as condições de vida eram bastante razoáveis e há motivos para crer que o lugar era cercado de certa boa vontade.

Para começar, até a entrada do Brasil na guerra, o então interventor federal em Pernambuco, Agamenon Magalhães, era ferrenho defensor da amizade entre Brasil e Alemanha. Em artigos no jornal A Folha da Manhã, exaltava os vínculos entre as duas nações. Após as pressões dos Estados Unidos para que o Brasil declarasse guerra ao Eixo, Agamenon trocou de lado. Chegou a posar para fotografias recebendo um cheque de 50.000 réis da comunidade judaica como contribuição ao Aeroclube de Pernambuco. No ofício 374-C dos arquivos do Dops, datado de outubro de 1942, o Ministério da Guerra propõe a Agamenon que tome precauções contra os alemães da Lundgren. A criação do campo de concentração aconteceu um mês depois da chegada do ofício.

 

http://fernandod.com.br/images/textos/PRISAO%20DE%20ALEMAES%20EM%20PERNAMBUCO%203.jpgPara os alemães, foi um alívio. “Acho que o campo na verdade foi criado para evitar que os funcionários dos Lundgren, pessoas bastante influentes na sociedade da época, sofressem de verdade na cadeia”, diz Franz Joseff Hermann, 79 anos, ex-funcionário da Companhia de Tecidos Paulista e um dos poucos que não foram enviados ao campo, por ter deixado a empresa onze meses antes da guerra. No campo Chã de Estevam, os confinados moravam com as famílias em pequenas casas de alvenaria, com três cômodos.(na ilustração ao lado, vista aérea de Araçoiaba).  

 

Recebiam visitas e tinham direito a manter correspondência com parentes na Alemanha. Continuavam até ganhando metade do ordenado de 2 contos de réis e iam à feira sem vigilância ostensiva. Deviam pedir permissão apenas para consultas médicas no Recife. Em suas cartas e telegramas, eles registram o conforto do local e mencionam suas maiores angústias — a proibição do idioma alemão e o afastamento do trabalho.

 

Durante a II Guerra, os Lundgren estavam consolidando o que seriam as Casas Pernambucanas. Em 1904, os filhos mais jovens de Hermann Lundgren, Arthur e Frederico, compraram a Companhia de Tecidos Paulista, que no seu auge chegou a ter 15.000 funcionários. Os alemães eram na maioria ex-integrantes do Partido Nazista, criado no Estado em 1936 e desfeito dois anos depois, quando o Estado Novo extinguiu todos os partidos.

 

Os novos documentos mostram que os Lundgren, de certa forma, protegeram alemães em Pernambuco da mesma forma que Oscar Schindler salvou judeus da Alemanha.