1817 - REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA
A Revolução Pernambucana foi um movimento separatista e republicano iniciado em 06 de março de 1817, e terminado quatro meses depois com a execução dos seus principais chefes. Teve como causa o sentimento nativista insuflado principalmente pelas lojas maçônicas e a rivalidade crescente entre portugueses e brasileiros, acirrada com a vinda da família real ao Brasil. (na ilustração, a Junta do Governo Revolucionário)
O incidente da Estança, ou da Capela de N. Sra. da Estância, em que um preto do regimento dos Henrique bateu num português que o insultara, precipitou os acontecimentos. O capitão-general Caetano Pinto de Miranda Montenegro (1748-1827), governador da província de Pernambuco de 1804 a 1817, ordenou a prisão de vários oficiais brasileiros; estes reagiram e o depuseram, instituindo um governo provisório. Porém, antes mesmo desse primeiro motim a fermentação revolucionária já vinha se desenvolvendo. Tanto que quando de sua eclosão foi divulgado pelos amotinados um projeto de lei orgânica em que se reconhecia a igualdade de cidadãos perante a lei, a liberdade de pensamento e de imprensa e a tolerância para todas as seitas cristãs.
Há indícios de que a data para o início do movimento havia sido marcada para o dia 16 de março, mas uma denúncia feita em 1º de março ao Desembargador de Relação da Bahia, José da Cruz Ferreira (1775-1841), natural do Rio de Janeiro, alertou as autoridades e desencadeou medidas repressivas. Convocou-se para o dia 06, na Fortaleza de Cinco Pontas, no Recife, um Conselho de Guerra, e paralelamente, foram detidos vários líderes civis. Mas no mesmo dia eclodiu o motim militar referido, que resultou na morte do brigadeiro Barbosa de Castro.
Este foi à fortaleza para prender oficiais suspeitos, entre eles o capitão Domingos Teotônio Jorge, principal conspirador na área militar, mas lá chegando foi morto a golpes de espada pelo capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado. A partir daí a fortaleza das Cinco Pontas sublevou-se e a revolução estourou antes do dia previsto, o domingo de Páscoa (06 de abril), pois os padres revolucionários queriam fazer "a ressurreição de Cristo coincidir com a da pátria". Ao saber disso o governador refugiou-se na Fortaleza de Brum, onde capitularia pouco depois sem oferecer resistência (na ilustração, bandeira da Revolução Pernambucana de 1817).
.O golpe consolidou-se no dia seguinte com a constituição de um governo provisório encabeçado por Manoel Corrêa de Araújo, representante da agricultura; Domingos José Martins, do comércio, Padre João Ribeiro de Castro, do clero; José Luís de Mendonça, da magistratura; e Domingos Teotônio Jorge, das Forças Armadas. O objetivo do governo revolucionário era o sistema republicano, nova bandeira, novos tratamentos e novos costumes implantados.
Quando o administrador colonial Marcos de Noronha e Brito (1771-1828), tomou conhecimento do levante, mandou por terra tropas comandadas pelo marechal Cogominho de Lacerda, e por mar um brigue, uma corveta e uma escuna, sob o comando do capitão Rufino Pires Batista. O objetivo era bloquear Recife e os portos adjacentes que estavam dominados pelos revolucionários. No dia 19 de março a vila de Recife amanheceu abandonada pelos revolucionários que pretendiam construir no interior uma república de lavradores. Nessa fuga, o padre João Ribeiro acabou suicidando-se.
A repressão tornou-se mais e mais violenta. Em Salvador foram fuzilados Domingos José Martins (na ilustração ao lado), José Luís de Mendonça e o padre Miguelinho, que secretariava o governo provisório. No Recife e na Paraíba, a comissão militar mandou enforcar Domingos Teotônio Jorge e diversos companheiros seus. Mais tarde, enquanto o Tribunal de Alçada assumia o comando dos trabalhos punitivos, o governador-geral Luis do Rego Barreto (de 1817 a 1821) passou a adotar uma política mais branda em relação aos acontecimentos, principalmente porque começava a compreender as raízes da insurreição. Por isso passou a desentender-se com o desembargador.
Em fevereiro de 1818, Dom João Vi ordenou o encerramento da devassa, libertando os réus sem culpa formada. Os outros (117) foram enviados para os cárceres. Posteriormente, alguns dos detidos obtiveram perdão real, outros faleceram nas cadeias e os restantes foram libertados pelo afrouxamento da estrutura do Reino Unido, provocado pela Revolução Constitucionalista de 1820, em Portugal.
Do ponto de vista dos revolucionários, 1817 representou uma primeira tentativa de libertação política que atenderia principalmente aos interesses das camadas dominantes nacionais (mercadores, aristocracia rural, militares e clero). A composição do Governo Provisório refletiu nitidamente os esforços de integração, no sentido de definir-se uma elite liberal nativa. A descolonização em relação a Portugal deveria ser feita sem alterações profundas na estrutura básica da sociedade (pretendia-se conservar a mão-de-obra escrava, por exemplo).