Engana-se quem pensa que baleias e golfinhos são animais do mar. Esses cetáceos são erroneamente chamados de mamíferos marinhos, pois, na verdade, podem viver tanto em água doce quanto salgada. Segundo a oceanógrafa Shirley Pacheco, do Centro de Biologia Marinha da USP, mamíferos aquáticos é o nome correto pelo qual eles deveriam ser conhecidos.
O motivo que dificulta e até mesmo impede a oportunidade das baleias serem vistas nos rios é a limitação de alimentos, que no tocante a elas inclui o fitoplâncton, composto de algas e bactérias microscópicas, além do krill, um crustáceo minúsculo semelhante a um camarão. As baleias comem em média, por dia, duas toneladas desses seres vivos, exigência alimentar que torna obrigatória a existência de uma enorme quantidade dos mesmos em seu habitat, para que elas consigam sobreviver. Sendo assim, uma baleia pode nadar sem dificuldades em águas doces, mas não encontra nos rios nenhum desses dois alimentos que constituem a base de sua nutrição.
Além disso, o ambiente oferecido pelo rio é menor e mais limitado que os oceanos. Com pouco espaço, as baleias têm dificuldade para realizar as manobras costumeiras de locomoção, aumentando, também, o risco de encalhamento. Por isso elas entram apenas de passagem pelos rios, geralmente quando se perdem ou se afastam de seus bandos. Porém, há uma espécie de baleia conhecida como Baleia Branca Beluga (Delphinapterus leucas), que habita as águas geladas em torno do círculo polar ártico, mais precisamente no Rio São Lourenço, Canadá. Essa espécie é a única baleia que pode realmente viver em águas doces.
Apesar das dificuldades que as baleias encontram no ambiente próprio dos rios, não são pouco comuns os casos das que entram neles por motivos desconhecidos. Em 17 de setembro de 2008, por exemplo, uma delas foi encontrada no rio Taquimboque, em Fernandes Belo, distrito do município de Viseu, estado do Pará. Essa baleia, cuja espécie não foi identificada, conseguiu ser resgatada por técnicos da Divisão de Fauna e Pesca e do Centro de Pesquisa e Gestão Pesqueira do Litoral Norte (Cepnor), do Ibama, da Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Civil do Pará (Dema) e do Corpo de Bombeiros de Capanema. Esses profissionais fizeram, na foz do rio, um cerco com barcos ao redor do grande cetáceo, levando-o dessa forma até o começo do oceano, de onde ele foi se deslocando lentamente para o mar aberto.
Outros três casos semelhantes foram registrados também no Pará, em 2007. Além deles, uma baleia Mink entrou pelo rio Tapajós, um dos afluentes do Amazonas, em 15 de novembro de 2007. Ao contrário da baleia do Taquimboque, a Mink encalhou em vários bancos de areia e acabou morrendo cinco dias depois, devido a ferimentos não cicatrizados, fome e estresse. Em 2006, uma baleia entrou no rio Tâmisa e foi parar em Londres, a 64 Km do mar, onde morreu dias depois. Segundo Shirley Pacheco, não é a água doce que provoca essas mortes, pois as baleias, quando por engano entram nos rios, já podem estar doentes, ou então machucadas porque foram atingidas por embarcações, e por isso se afastam de seu ambiente original. Daí ser difícil associar a morte do animal ao fato dele estar em água doce.
Não são poucos os registros feitos nos jornais brasileiros, de baleias encalhadas em praias do nosso litoral. Em 11 de agosto de 2004, por exemplo, o jornal Folha Online noticiou o encalhe de uma delas na praia dos Ossos, em Búzios (RJ), acidente que terminou em final feliz porque a acidentada retornou ao mar no início da noite, rebocada pelos bombeiros. Ouvido a respeito, o biólogo Lucas Baptista Hassel, do Departamento de Endemias da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, que acompanhou os trabalhos de remoção, esclareceu que o animal apresentava ferimentos superficiais e sumiu em alto-mar. “Tudo indica - disse ele - que seja uma mink. Amanhã vamos ver imagens feitas por turistas para confirmar a espécie”.
Continuando, informou o jornal que para Walter Plácido, assessor técnico da gerência do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) no Rio, a baleia parecia desorientada ao chegar na praia. De acordo com o entrevistado, o órgão em que trabalha estaria organizando um grupo de trabalho para acompanhar casos de resgate de animais aquáticos, grupo esse que, quando pronto, deverá trabalhar em conjunto com a Marinha, Petrobras, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Uerj, Fiocruz, Projeto Jubarte e ONGs.
No dia anterior ao do acontecimento que originou a reportagem acima mencionada, uma baleia jubarte havia morrido encalhada na praia do Forte de Imbuhy, Niterói (RJ). Segundo os técnicos, ela pesava 18 toneladas e media cerca de 13 metros de comprimento, tendo sido vitimada por asfixia ou hemorragia interna, em virtude do peso. O animal foi levado horas depois para o aterro sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Sobre o fato, a assessoria técnica da gerência do Ibama adiantou que "Nós vamos averiguar se existem causas ambientais para o encalhe dessas baleias".
Em data mais recente (28 de dezembro de 2009) as agências noticiosas divulgaram que 125 baleias morreram encalhadas na costa da Nova Zelândia, no último domingo (dia 27). Voluntários e especialistas em conservação passaram o dia tentando salvar as baleias na praia de Colville Beach, no norte do país, tendo conseguido mandar 43 delas de volta para o mar. Esses animais foram monitorados e, segundo especialistas, o grupo já estava em alto mar na manhã desta segunda-feira. Dezenas de baleias ficam encalhadas na costa da Nova Zelândia a cada verão, mas os biólogos ainda não encontraram uma explicação definitiva para essas ocorrências.
Fonte: Agência Universitária de Notícias - USP