Ouriço-cacheiro é o nome genérico atribuído no Brasil a pelo menos oito espécies conhecidas, pertencentes à família Coendou. A palavra ouriço identifica, na Europa, roedores pertencentes a uma ordem de insetívoros sem representantes brasileiros, enquanto cacheiro significa ardiloso, astuto, que se esconde (uma referência ao ouriço que se oculta sob os próprios espinhos).
Encontrados nas florestas úmidas da Venezuela, Guianas, Bolívia, Brasil e norte da Argentina, eles são animais solitários e territoriais que vivem habitualmente na copa de árvores, ocultos em emaranhados de cipós e ramagem densa, repousando durante a maior parte do dia e descendo para o chão apenas no alvorecer e depois do crepúsculo noturno.
Silenciosos e pequenos (a maioria tem, em média, 30cm de comprimento, sem contar a cauda curta, e peso de até dois quilos, no máximo), esses mamíferos são animais difíceis de serem observados em liberdade, na natureza, apesar de se movimentarem com lentidão. Embora erroneamente, muita gente o chama de porco-espinho, nome pelo qual são conhecidos roedores de cinco espécies pertencentes à família Erinaceus europaeus, que vivem na Europa, parte da África e Ásia, têm mais ou menos o mesmo tamanho e aparência, mas se alimentam principalmente de minhocas, larvas de insetos, pequenos vertebrados e frutos. Outras diferenças registradas na literatura a respeito são a de que hibernam e dobram o corpo como forma de defesa, deixando acessíveis ao predador apenas os espinhos pontiagudos que lhes cobrem quase todo o corpo.
O ouriço-cacheiro tem como habitat as florestas tropicais da América do Sul. Sua alimentação é composta por frutos, brotos, sementes, folhas e casca de árvores, que também lhe fornecem a água de que precisa. Quanto à reprodução, seu período de gestação é de 200 dias, aproximadamente, nascendo em cada uma delas um único filhote, cujos espinhos, apesar de existentes, ainda não são rígidos, o que vai acontecendo durante seu desenvolvimento. Quando o animal chega à fase adulta, seu dorso e laterais do corpo mostram-se guarnecidos por espinhos de pontas amarelas, compridos e aguçados, enquanto o ventre e a cauda possuem pêlos rígidos e curtos.
Na verdade, esses espinhos são pêlos modificados que podem alcançar até 10cm de comprimento. Quando atacado, o ouriço-cacheiro arrepia sua cobertura espinhosa e dá as costas ao predador, a fim de proteger o focinho e o ventre, suas partes mais vulneráveis, tornando-se, assim, uma presa pouco atrativa. Duros e fortes esses espinhos se soltam facilmente quando seu dono é tocado por algum agressor, o que explica o por quê de não ser difícil encontrar animais urbanos, como o cachorro, ou silvestres, como a onça, trazendo no focinho algumas das cerdas rijas que lhes foram presenteados pelo agredido durante um ataque mal-sucedido. Embora muitas pessoas acreditem que o ouriço-cacheiro seja capaz de disparar tais pêlos duros contra os que lhe atacam, isso não passa de mera crendice. Assim, se o atacante aparecer espetado é porque abocanhou a vítima, ou a tocou com o focinho.
A cauda pelada do ouriço-cacheiro tem, em média, 15cm de tamanho, e é graças a ela que seu dono consegue manter-se bem agarrado a cipós e ramos de árvores, escondido de olhares indesejados em alturas de até 15 metros.
Segundo os pesquisadores, essa estratégia natural é que lhe permite escapar principalmente dos grandes felinos, seus principais predadores, mas, além disso, quando o pequeno animal desce do topo das árvores e se aventura em caminhar pelo chão, outros perigos podem lhe surgir pela frente: como o dos caçadores, por exemplo, que os têm como um tipo de comida que não deve ser desprezada; ou então quando a fome aperta e os faz buscar alimento em pequenas plantações, onde não raro os cachorros os matam.
Segundo Adriano Chiarello, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), das espécies de ouriço identificadas no Brasil, apenas uma, a do ouriço-preto (ilustração) está na Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas de Extinção. Ele difere de outros ouriços em diversas características: seus espinhos, por exemplo, são moles, o que o torna mais vulnerável a predadores.
Essa ameaça de extinção é decorrente dos grandes desafios que esse animal enfrenta. Para o pesquisador, o primeiro relaciona-se com o fato dele ser habitante de restingas, “um dos ecossistemas mais pressionados por negócios imobiliários (ao lado dos mangues), por ocupar faixas nobres, de terreno plano, nas baixadas litorâneas e, portanto, de fácil ocupação humana. A população da espécie sofre tanto com os desmatamentos como com a fragmentação dessa vegetação. O segundo é a dieta: o ouriço-preto é folívoro por excelência (come folhas), e forrageia apenas em algumas poucas árvores típicas das restingas. Quando não perde espaço para loteamentos, vê sua comida ser substituída por eucaliptos”.
Nas áreas onde vive, o ouriço-cacheiro desempenha um papel importante como controlador e disseminador involuntário da diversidade vegetal. Por ser alimentar de folhas, flores e frutos, ele controla, através da eliminação de sementes ingeridas, as populações de algumas espécies, favorecendo a abundância e diversidade dessas plantas E como estão presentes em grande parte do país, desde a Amazônia e Mata Atlântica (apesar da fragmentação a que esta última foi submetida), a matas secundárias, matas de galeria ou até mesmo em capões, sua preservação é de extrema importância para a natureza.