BOIS E A BEZERRA, OS

Na fazenda, a época era de preparação do solo para plantio, e por isso desde cedo o dono da propriedade fazia seus dois bois irem e virem de um lado a outro do terreno puxando o arado tosco, um galho de madeira dura que servia para cavar a terra, erguê-la e revolvê-la. O trabalho era monótono, penoso e cansativo, mas os bois eram fortes, estavam acostumados a essa lida, e o resultado é que executavam sua tarefa com a paciência e conformismo que somente os bovinos possuem.

 

Ali perto, uma bezerra já bem crescida acompanhava aquele vai e vem ininterrupto dos bois grandalhões, e se compadecia da má sorte que o destino lhes impusera. “Coitados – pensava ela -, que vida mais sem graça a desses coitados, que não fazem outra coisa senão trabalhar, trabalhar, trabalhar... Feliz sou eu que posso desfrutar o quanto queira de tudo aquilo que a natureza me oferece, sem ser obrigada a coisa nenhuma”.

 

Os bois não a ouviam, mas adivinhavam seus pensamentos. Afinal de contas, que mais poderia pensar uma bezerra já saída da infância ao vê-los mourejar diariamente sob o sol inclemente, enquanto ela não se ocupava de outra coisa senão comer, dormir e passear? Fazer o quê, se cada um cumpre a sina que lhe é reservada, sem que disponha de alguma alternativa para alterá-la em qualquer detalhe?

 

Poucos dias depois foi realizada na fazenda uma solenidade religiosa em agradecimento às boas condições do tempo, prenúncio de colheita farta e abundante. E para homenagear e agradar os deuses a bezerra foi trazida do pasto e sacrificada no terreiro, à vista de todos, enquanto os bois, de longe, acompanhavam seus derradeiros momentos. Foi quando um deles disse ao outro:

 

- Pobre bezerra. Agora ela sabe por que não trabalhava e ficava à-toa, não é mesmo? A infeliz criatura nem desconfiava que estava reservada para o sacrifício.

 

Moral da história: A ociosidade não é bom caminho porque ninguém sabe aonde ela pode levar.

 

Baseada em uma fábula de Esopo.