ORELHAS DA LEBRE, AS

Ninguém sabe dizer como o leão foi ferido pelo chifre de um animal, mas o fato é que isso aconteceu, e como tudo se passou numa noite em que as nuvens esconderam a lua e não a deixaram brilhar sobre a floresta, o rei dos animais não conseguiu ver quem o tinha atingido. Isso o impedia de agir contra quem o machucara, e como essa impotência o enraivecia ainda mais, ele decidiu que todos pagariam pela afronta, pouco importando se ela tivesse sido ocasional ou não. E por isso decretou que qualquer bicho dotado de armação na cabeça deveria livrar-se dela, sob pena de ser severamente castigado.

 

Foi um Deus nos acuda. Alces, touros, cabras, carneiros, gazelas e outros animais chifrudos trataram de mudar-se imediatamente para outras paragens menos perigosas, já que nenhum deles pretendia despojar-se do ornamento que a natureza lhes havia colocado sobre a cabeça. Mas apesar do temor que tomou conta da bicharada, alguns poucos habitantes da floresta, aqueles dominados por maior curiosidade, teimosia ou inconseqüência, arriscaram permanecer por ali durante mais algum tempo, para ver que rumo tomariam os acontecimentos.

 

A lebre tinha conhecimento do que se passava, mas como a decisão do leão não a atingia, ela se manteve despreocupada até o dia em que, quando se esquentava ao sol, percebeu que a sombra de suas orelhas, projetadas no chão, pareciam ser muito, muito compridas. Diante dessa constatação, logo lhe assaltou a idéia de que se alguém as visse daquele jeito e as tomasse como chifres, a ira da realeza poderia desabar sobre sua cabeça a qualquer momento. Assustada com esse pensamento, a lebre revelou ao grilo que descansava a seu lado:

 

- Adeus, vizinho! Estou indo embora porque descobri que se minhas orelhas forem tidas como cornos, estarei perdida.

 

- Cornos? Isso? – respondeu-lhe o grilo. – Mas qualquer um pode ver que são orelhas, e das boas, tal como Deus as colocou em você.

 

- Eu sei disso – volveu a lebre. – Mas de que adiantarão as minhas razões, se o rei decidir o contrário?

 

 

Moral da história: De que vale a razão do fraco diante da discordância de quem tem o poder nas mãos?

 

Baseado em uma fábula de La Fontaine.