COTOVIA E OS FILHOS, A

A cotovia não era nova de idade, e talvez por esse motivo tenha atrasado a sua postura naquele ano. Ela havia feito o ninho em uma grande lavoura de trigo, e embora este estivesse quase em ponto de colheita, os filhotes da mãe tardia ainda se encontravam implumes, ao contrário da maioria das novas e irrequietas aves de sua espécie que já esvoaçavam alegremente pelos ares das redondezas.

 

Um dia o dono da plantação veio vê-la com seus filhos, e verificando que estava praticamente seca, disse a um dos rapazes:

 

 - Amanhã vamos começar a ceifar o trigo. Vá à casa de nossos amigos e peça que eles venham nos ajudar, porque temos muito trabalho a fazer.

 

Ao ouvirem aquilo os filhotes da cotovia ficaram apavorados, e quando a mãe regressou ao ninho todos lhe disseram quase que a uma só voz:

 

- Mãe! Estamos perdidos! Um homem esteve aqui e disse que amanhã mesmo eles e os seus amigos vão iniciar a colheita. Nós ainda não podemos voar, e por isso não temos como fugir do perigo que nos ameaça. O que vamos fazer?

 

Mas a mãe os tranqüilizou:

 

- Não fiquem preocupados, porque amanhã não vai acontecer nada.

 

E realmente, ninguém apareceu para trabalhar na lavoura, porque os convidados pediram desculpas, alegaram que tinham outros compromissos e por isso não poderiam ajudar. Então o dono do trigal chamou um dos filhos e lhe disse:

 

 - Vá à casa dos nossos parentes e peça a cada um deles que venha amanhã com sua foice para trabalhar conosco na ceifa do trigo. Diga a todos que nós não podemos correr o risco de perder a plantação.

 

Ao escutarem essas palavras os filhotes da cotovia se alvoroçaram como no dia anterior, contaram à mãe que daquela vez os parentes do fazendeiro é que haviam sido chamados, mas esta, esperta e experiente como era, voltou a acalmá-los:

 

- Parentes? Sosseguem, filhotes, pois amanhã a colheita também não se inicia.

 

Dito e feito. Na manhã seguinte chegou um recado dos familiares procurados dizendo que eles primeiramente tratariam de colher o que haviam plantado, para só então ajudar a quem precisasse. Aí o dono da lavoura reuniu os filhos e determinou:

 

- Hoje vocês irão ao mercado comprar novas foices porque amanhã começaremos a ceifar o que plantamos. Como só em nós mesmos é que podemos confiar, então vamos tratar de fazer o que já deveríamos ter feito. Tenho certeza de que terminaremos esse serviço em tempo bem menor do que estamos imaginando.


Ouvindo aquelas palavras, a cotovia alertou os filhotes:

 

- Vamos, filhos, chegou a hora. Precisamos deixar esta habitação o mais rápido que pudermos, porque agora a coisa é para valer.

 

E a família inteira se pôs a caminho, à procura de um novo lar, os filhotes enfileirados atrás da mãe, dando saltinhos porque ainda não sabiam voar, mas cientes de que precisavam fazer aquilo para poderem se safar da ameaça que pairava sobre eles.

 

Em menos de três semanas de trabalho o fazendeiro e seus filhos completaram a ceifa e armazenaram o trigo, sem que para isso tivessem se submetido a grandes canseiras.

 

Moral da história: Quem quer vai, quem não quer, manda.

 

Baseado em uma fábula de La Fontaine.