Certo dia uma navalha cansou-se da vida que levava. Ela morava em uma barbearia movimentada e por isso desempenhava sua tarefa de barbeação várias vezes durante o dia. Isso foi se repetindo ao longo de alguns meses, até que não tendo mais motivação para continuar fazendo o que fazia, a navalha aproveitou um momento em que o salão estava vazio, desprendeu-se do cabo que a guardava e saiu para a rua, disposta a descobrir o que existia lá fora.
Ao avistar o sol de meio-dia a navalha ficou surpresa com tamanha luminosidade, e logo em seguida maravilhou-se com o reflexo daquela luz brilhante em si mesma. E sua emoção chegou a tal ponto que ela murmurou decidida:
- Voltar para aquela loja de onde consegui escapar? Nunca!... Tenho certeza de que os deuses aprovarão a decisão que tomei, pois como poderia eu continuar desonrando a beleza que tenho com essa rotina sem glória de raspar dia após dia a barba de camponeses que jamais se deram conta de como sou elegante e bem feita. Não! Não voltarei!... Vou tratar de procurar um lugar onde possa me esconder sossegada, sem receio de ser descoberta, e passar lá o resto da minha vida.
E assim ela fez. Mas decorridos alguns meses a navalha não mais conseguiu reprimir o desejo de respirar um pouco de ar fresco, e então ela saiu cautelosamente do buraco aonde se enfiara e examinou-se com atenção, para descobrir horrorizada que sua lâmina toda enferrujada já não refletia a luz do sol como antes, e que a sua beleza havia desaparecido da mesma forma como a fumaça se dissipa no ar. Nessa hora, amargamente arrependida do que fizera, só lhe restou lamentar a perda que sofrera:
- Oh, céus, melhor seria que eu tivesse continuado a raspar rostos ensaboados, ao invés de me esconder como fiz. Porque assim a minha lâmina continuaria brilhante e afiada, e não ficaria como está agora, corroída e coberta de ferrugem, sem que eu nada possa fazer para consertar esses estragos.
Moral da história: Quando a preguiça impede que alguém use os talentos de que dispõe, o preguiçoso logo será corroído pela ferrugem da incapacidade ou da ignorância.
Baseado em uma fábula de Leonardo da Vinci.