Já fazia algum tempo que as chamas brilhavam dia e noite na fornalha do soprador de vidro, porque este e seus ajudantes trabalhavam quase sem descanso para poder produzir e entregar no prazo certo as encomendas que recebiam. Certa hora, sabe-se lá por qual motivo, um castiçal prateado foi colocado bem ao lado da fornalha, e nele uma vela curta fazia luzir a pequena língua de fogo que produzia com mal disfarçada displicência.
Isso foi o bastante para que as chamas logo procurassem aproximar-se da recém-chegada, e tanto fizeram que uma delas finalmente conseguiu saltar mais alto que as outras, o que lhe permitiu passar por uma pequena fresta, alcançar a vela e começar a devorá-la com a sofreguidão característica das labaredas de qualquer tamanho. Em pouco tempo não restava mais nada da vela, e a chama, satisfeita, tentou retornar à fornalha, mas apesar das tentativas que fez, não conseguiu se desgrudar da cera amolecida. Então, ao se dar conta do perigo que corria, ela pediu socorro às suas irmãs que crepitavam na fornalha, mas gritou em vão, porque estas nada puderam fazer, a não ser assistir a transformação da chama gulosa em uma espiral de fumaça logo dispersa pela corrente de ar que entrava por uma abertura na parede do cômodo.
Moral da história: A ambição demasiada é um caminho de mão única para a ruína e destruição.
Baseado em uma fábula de Leonardo da Vinci