Certa vez, em certo lugar, um burro revoltou-se contra o que a vida lhe dava. Tudo começou no tempo em que ele trabalhava para um horticultor, mas, inconformado, passou a reclamar que seu dono o acordava muito cedo, bem antes do dia amanhecer. E por isso queixava-se ao Fado, entidade responsável pelo destino de cada um, que nem mesmo os galos, também madrugadores, levantavam-se antes dele.
- E para quê? - perguntava o insatisfeito. - Para levar hortaliças ao mercado? Será esse motivo tão justo a ponto de não me deixarem dormir em paz?
O Fado aceitou a queixa do burro dorminhoco e o encaminhou a outro dono, um curtidor de peles, mas não foi preciso muito tempo para que o peso da nova mercadoria que o insatisfeito carregava diariamente, mais o seu cheiro repelente, pusessem-no a resmungar novas lamentações:
- Ai de mim! Que saudade do tempo em que o dono da horta era o meu senhor! Naqueles dias eu tinha mais liberdade, vez ou outra conseguia furtar uma folha de couve sem que percebessem, mas agora, quando trabalho sem descanso de manhã à noite e ainda por cima com o mal-cheiro do que carrego me envenenando os pulmões, nada me resta senão suportar com tristeza as agruras que o destino me reservou.
Suas lamúrias foram ouvidas novamente, e por isso ele foi entregue a um carvoeiro. Mas dessa vez a Sorte, força invencível responsável pelo que de bom ou ruim acontece às pessoas, bradou irada:
- Essa história já passou dos limites! O que esse burro está pensando? Que só ele vive descontente com a sua condição? E por isso vive a me importunar com suas queixas, reclamando minha atenção e meus cuidados?
Mas o Destino, personificação daquilo a que todos os indivíduos e coisas estão sujeitos, lhe respondeu sabiamente:
- Não se irrite, minha cara, porque os que vivem na Terra são feitos dessa forma, nunca estão satisfeitos com o que têm. Sempre julgam que o momento atual é ruim, que pode ser melhorado, e por isso não se cansam de clamar aos deuses que realizem seus desejos e aspirações. Mas ainda que fossem atendidos, mesmo assim as queixas e lamúrias continuariam, pois eles são o que são, e nada os mudará.
Moral da história: Aprenda a gostar do que você é. Lembre-se de que poderia ser pior.
Baseado em uma fábula de La Fontaine.