Costumam dizer que a raposa é um animal esperto, bem mais que os outros bichos selvagens que competem com ela na luta diária pela sobrevivência. Como o lobo, por exemplo, que para manter sua vida não hesita em tirar a das presas que lhe caem nas garras. Para isso, reconheça-se, é preciso perícia, porque ninguém serve de almoço a alguém sem antes tentar o possível e impossível para escapar de tal destino, mas como falamos aqui de malícia, de astúcia, de sagacidade, de velhacaria e habilidade, a raposa tem a coroa sobre a cabeça, porque só ela é capaz de engendrar os melhores planos para alcançar o que busca ou deseja.
Ou seja, no confronto entre a sutileza e a força bruta, a preferência é pela primeira das duas propriedades.
Confirmando essa afirmação, certa lenda contada pelos antigos revela que uma raposa em caçada noturna chegou a um poço de pouca profundidade, e ali parou para descansar e pensar no que fazer em seguida. A noite era de lua cheia, refletida por inteiro na superfície do pequeno depósito subterrâneo de água. Ao vê-la, a caçadora esfaimada logo pensou que acabara de descobrir um queijo que ali caíra sabe-se lá como, e por isso procurou uma forma de descer o mais depressa possível, e recolher o petisco que avistava. Olhando com mais atenção, ela notou que a corda enrolada no sarilho do poço prendia baldes em suas duas extremidades: um em cima, na beira do buraco, e outro embaixo, mergulhado na água. Diante disso, uma idéia logo lhe acudiu: colocou o vasilhame vazio no vão que mergulhava poucos metros pela terra abaixo, entrou nele, e foi descendo devagar, enquanto o outro recipiente subia cheio até a borda, contrabalançando o seu peso. Uma vez no fundo, a dolorosa constatação: o queijo desejado não existia, pois nada mais era que a imagem da lua refletida no espelho cristalino da água armazenada.
Desconsolada, a raposa percebeu que cometera um erro grave, principalmente depois de concluir que não tinha como sair dali. E assim, ao final de dois dias, quando já começava a ser dominada pelo torpor que dizem acometer os vencidos pela fome, ela ouviu o barulho feito por que alguém que se acercava do poço. A noite ainda era de lua cheia, e por isso a raposa pôde perceber quando a cabeça de um lobo surgiu na abertura estreita do buraco, olhando para baixo. Foi nesse momento que suas qualidades de animal astucioso e sagaz imediatamente entraram em ação, e ela disse ao recém-chegado:
- Boa noite, amigo lobo, veja que bela iguaria eu descobri aqui dentro: um queijo muito gostoso, tão gostoso que ninguém jamais poderá lhe colocar defeito. Mas ele é muito para mim, e por isso, caso você também queira aproveitar ao máximo esse presente delicioso que os deuses nos deram, é só descer e saciar seu apetite o quanto possa, porque ninguém vai lhe impedir.
Dominado pela gula, o lobo perguntou:
- Mas como é que faço para chegar até aí.
- É fácil – respondeu a raposa. – Está vendo o balde amarrado na ponta da corda, bem aí à sua frente? Entre nele e desça sem susto, porque eu vou usar o que está aqui embaixo para compensar o peso do seu corpo com o meu, evitando assim que você caia de uma vez. Depois que o amigo tiver comido o queijo, nós repetiremos a operação, só que ao contrário.
O lobo acreditou na história, e assim foi feito. Acontece que tão logo chegou à superfície, a raposa tratou de se mandar para local incerto e não sabido, enquanto o lobo... bem, até hoje ninguém sabe o que foi que aconteceu com ele.
Moral da história: Quando a esmola é muita, até o santo desconfia.
Baseado em uma fábula de La Fontaine.