TIGRE-DE-BALI

A Indonésia tem como capital a cidade de Jacarta, na ilha de Java. Com pouco mais de 17 mil ilhas, esse arquipélago – o maior do mundo - é formado por um grupo de ilhas maiores e trinta grupos de ilhas menores, entre as quais se inclui Bali, a mais ocidental das Pequenas Ilhas de Sonda, situada a leste de Java, da qual é separada por um estreito com 2,5 km de largura. Antes, essas duas províncias indonésias formavam um só bloco, mas há 20.000 anos, quando a última era glacial cobriu a Eurásia com extensos mantos de gelo, seus efeitos e conseqüências redundaram na separação dos territórios que hoje formam as duas ilhas.

 

Com área territorial de 5.620 km², e população atual estimada em torno de 3 milhões de habitantes (mais de 500 por km²), Bali já era povoada por volta do século 9, conforme atestam os registros humanos mais antigos já encontrados na ilha: inscrições em pedra datadas daquela época.  Sua superfície é repleta de montanhas, em sua maioria vulcões (alguns deles ativos), tendo como ponto mais alto o Monte Gunung Agung, um vulcão cuja última erupção ocorreu em 1963.

 

Da fauna da ilha fazia parte o tigre-de-bali (Panthera tigris balica), uma subespécie de tigre (a menor de todas) que pesava cerca de 100 quilos, ou seja, menos da metade dos tigres-siberianos, e vivia apenas naquele território, mas desapareceu devido a vários motivos, sendo um deles a caça intensiva. De acordo com os registros conhecidos, o último exemplar dessa família era uma fêmea adulta que foi abatida por caçadores em Sumbar Kima, situada no lado oeste de Bali, no dia 27 de setembro de 1937. Como, na época, nenhum tigre balinês era mantido em cativeiro, essa subespécie foi declarada oficialmente extinta. Posteriormente, outras duas – Tigre-do-Cáspio, em 1970, e Tigre-de-Java, em 1980 – seriam acrescentadas à lista dos animais desaparecidos da face da Terra em conseqüência da ação predatória do homem. Outras cinco – Tigre-de-Bengala, Tigre-da-Indochina, Tigre-da-Sibéria, Tigre-do-sul-da-China, e Tigre de Sumatra, também se encontram criticamente ameaçadas, embora não se tenha idéia exata sobre a gravidade da situação vivida por cada uma delas.

 

O tigre-de-bali era o menor entre todas as subespécies dessa família de felinos. Do tamanho semelhante ao de um leopardo (machos medindo aproximadamente 1,61 cm mais 64 cm de cauda, e fêmeas com 1,43 cm mais 57 cm de cauda), tinha muita semelhança com o Tigre-de-Java, do qual ficou apartado quando, na Era do Gelo, o surgimento do estreito de Bali transformou em duas ilhas o território no qual conviviam. Sua pelagem era mais densa e de cor alaranjada intensa, e as riscas mais escuras, embora em número menor que as apresentadas por outros tigres, ramificavam-se em riscas menores.

 

Seu habitat era restrito à área costeira da região ocidental da ilha, onde viviam sem problemas porque sua população certamente não era muito grande. Mas com a chegada de homens em número cada vez maior, e a conseqüente transformação da área em terras cultivadas, levando assim à derrubada de florestas e diminuição da oferta de alimentos para os tigres, sua condição de sobrevivência foi dramaticamente reduzida, situação que se tornou mais grave diante da caça impiedosa que passaram a lhe promover. No início do século 20 esses tigres viviam apenas em áreas restritas nas montanhas, na parte oeste da ilha, aonde muitos indonésios e estrangeiros iam apenas para satisfazer seu desejo de caçar um tigre-de-bali e vangloriar-se em seu local de origem com a foto do animal abatido (na ilustração acima, foto do último tigre-de-bali abatido pelo tiro certeiro de um caçador desconhecido).

 

A última tentativa de preservação dessa subespécie foi a criação do Parque Nacional de Bali em 1941, porém é bem provável que já nessa data não mais existissem tigres a serem preservados. E como também não havia nenhum exemplar desse animal em cativeiro, por meio do qual se pudesse tentar manter sua família presente na natureza, ele foi considerado extinto na década de 1950.

 

As tradições que durante muito tempo mantiveram-se vivas entre a população nativa da ilha, garantiam que os bigodes do tigre-de-bali, se transformados em pó, serviriam como potente veneno contra inimigos. Outra tradição recomendava que fosse dado aos recém-nascidos um amuleto de proteção feito com um colar de coral negro, hoje também em fase de extinção, e um dente ou pedaço de osso de tigre. Mas com o desaparecimento desses animais os amuletos passaram a ser feitos com ossos ou dentes de leopardos ou ursos malaios. Em outras palavras, superstição é superstição, pouco importando o que a mantém acesa.