VACA-MARINHA-DE-STELLER

Os sirenios são mamíferos marinhos dos quais se conhecem várias espécies, como a dos dugongos chamados de peixe-boi, e a dos manatins, a que dão o nome de vaca-marinha. Entre essas espécies incluía-se a Hydrodamalis giga, descoberta em 1741 por Georg Wilhelm Steller (1709-1746), naturalista, botânico, zoólogo, médico e explorador russo de origem alemã, que explorou a Sibéria e o mar de Bering a serviço da Rússia.

 

Ele participava da segunda expedição do dinamarquês Vitus Jonassem Bering (que na primeira viagem à mesma região encontrou a passagem marítima entre a Ásia e a América, depois batizada como Estreito de Bering), foi um dos que sobreviveram àquela aventura mal sucedida, e fez vários relatos sobre esse animal também chamado posteriormente de vaca-marinha-de-steller.

 

Maior mamífero já existente em nosso planeta, com exceção das grandes baleias, elas eram donas de um corpo volumoso coberto por pele espessa e cor amarronzada, comprimento em torno de oito metros e quase seis de diâmetro na sua parte mais volumosa, cauda larga em forma de meia-lua, e pesando várias toneladas (de 6 a 10, conforme descrição de vários autores). As vacas-marinhas-de-steller tinham a cabeça pequena em relação ao corpo, olhos e narinas também diminutos, pescoço que praticamente não aparecia, pequenas nadadeiras que se assemelhavam a ganchos, além de não possuírem dentes, mas sim placas de uma proteína fibrosa (queratina) com as quais triturava a comida que abocanhava. Essas placas eram feitas do mesmo material encontrado nas unhas dos seres humanos, nas penas e bicos das aves, nos espinhos do porco-espinho, nas unhas, pêlos, garras, cascos e chifres dos mamíferos, e  também nas escamas que cobrem a pele das cobras.

 

Pouco se sabe a respeito dos seus hábitos de vida e reprodução, mas supõe-se que formassem casais monogâmicos, ou seja, que só tinham um companheiro (ou companheira) ao longo da vida. Os machos e as fêmeas cuidavam juntos dos seus filhotes, que nasciam um por ninhada, geralmente na época do outono, e após gestação demorada.

 

Elas viviam em águas frias e rasas do mar de Bering, nas proximidades de uma ilha totalmente isolada e inabitada, as Ilhas Commander, na região sudoeste do Mar de Bering, alimentando-se das algas que ali encontravam em grande quantidade e variedade. No entanto, restos fósseis encontrados por pesquisadores indicam que esses animais marinhos distribuíam-se anteriormente por área que se estendia do Japão às costas da Califórnia, nos Estados Unidos, e que desde aquela época o homem as perseguia implacavelmente

 

As vacas-marinhas-de-steller eram dóceis, viviam em grupos de vários indivíduos, nunca saíam da água e tinham respiração pulmonar, o que as forçava a subirem à tona com freqüência, em busca de oxigênio. Nesses momentos elas colocavam de fora d’água apenas as narinas situadas na ponta do focinho, enchiam os pulmões de ar e  voltavam a mergulhar, permanecendo submersas por períodos de 4 a 5 minutos.

 

A caçada sem descanso a esses grandes mamíferos marinhos começou assim que eles foram descobertos, tornando-se cada vez mais intensa na medida em que pescadores e colonos ocidentais chegavam à região. Além de serem presas fáceis, porque eram lentos e viviam em águas rasas, deles os homens aproveitavam a carne (da qual se dizia ter a macieza e sabor de um bom bife de boi), a gordura (cujo óleo era aproveitado na cozinha ou em lamparinas usadas para iluminação), a pele (utilizada na fabricação de roupas e barcos) e até mesmo o leite das fêmeas, consumido ao natural ou transformado em manteiga. Daí o interesse que motivava a sua busca.

 

E como se isso já não fosse suficiente, a caça que na mesma época se fazia às lontras marinhas, predadoras naturais dos ouriços do mar, provocou um crescimento anormal da população destes últimos, que por também se alimentarem das algas e demais plantas do mar, transformaram-se, nesse particular, em sérios competidores das vacas-marinhas-de-steller, reduzindo-lhes a disponibilidade de alimentação. Em conseqüência de todos esses fatores, em 1755 foi determinada nos portos de pesca do mar de Bering, a proibição da caça desses mamíferos, medida que a essa altura não produziu mais efeitos porque a espécie já se encontrava em fase final de extinção.

 

Das anotações feitas pelo naturalista Georg Steller constam algumas informações sobre hábitos e comportamento dos maiores sirênios que o mundo já conheceu. Nelas o pesquisador alemão esclarece que os mesmos eram pacíficos comedores das algas marinhas que raspavam das rochas, e que se mantinham unidos por fortes laços sociais, inclusive um admirável espírito de solidariedade. Diz-se, inclusive, que para fortalecer essa afirmativa Steller sustentava que quando um deles era arpoado, os outros não só tentavam impedir que fosse arrastado para a margem, como também tentavam inutilmente arrancar o arpão do corpo do companheiro que havia sido atingido pelo instrumento de caça.   

 

A vaca-marinha-de-Stller desapareceu definitivamente em 1768, apenas 27 anos depois de ter sido descoberta pelos ocidentais.