Perseguida pelos caçadores a raposa conseguiu fugir, mesmo ferida por um tiro. Depois, deitada á beira de uma área pantanosa escondida em um canto da floresta, ela se sentia fraca e esgotada graças não só ao susto que sofrera, ou à correria desenfreada que fora obrigada a sustentar por bom tempo, mas principalmente em virtude do sangue que perdera através do ferimento que a bala lhe causara. Além disso, e para piorar a situação, muitas moscas aproveitavam-se de sua prostração e se fartavam à vontade na ferida aberta, sem encontrarem qualquer tipo de reação. A raposa, coitada, estirada no chão, semimorta, murmurava inconformada:
- Que sorte negra a minha, ter que passar pelo vexame de ver essas moscas servindo-se do meu corpo como alimento. Para que me serve a cauda, se não consigo mexê-la? Transformou-se num apêndice inútil! Quem poderia imaginar que eu, o mais sutil vivente da floresta, seria um dia submetido a essa humilhação? Ah, moscas esfomeadas, procurem outro corpo para atenuar o apetite insaciável de suas entranhas, e deixem-me só, sofrendo a minha dor.
Ouvindo a lamentação da raposa exangue, um ouriço que passava ali por perto apiedou-se dela e imaginou que poderia livrá-la dos insetos que lhe aumentavam a irritação e o sofrimento. E ofereceu os seus préstimos dizendo:
- Cara raposa. Com os meus espinhos eu posso matar essas moscas em muito pouco tempo, livrando-a desse incômodo que não lhe dá sossego. E posso começar a fazer isso agora mesma, basta a senhora querer.
Ouvindo tais palavras, a raposa respondeu:
- Não, não quero! Não precisa enxotá-las, bondoso ouriço. Deixe-as terminarem o seu banquete nefando, pois já estão quase fartas. Se forem embora agora, outras chegarão logo em seguida, talvez até mais esfaimadas que elas, e então a minha queixa será ainda maior.
Moral da história: “Assim é a vida e tudo neste mundo. / Desde a negra miséria aos grandes resplendores, / ministros, cortesãos..., são todos comedores, / todos têm consigo o mesmo mal profundo. / Este apólogo audaz foi aplicado ao homem; / Aristóteles fê-lo e tinha-o como certo. / Exemplos destes há imensos e bem perto... / Quanto mais cheios, saciados, menos comem!” – (La Fontaine)
Baseado em uma fábula de La Fontaine.
16/03/2009