Faltavam poucas horas para o dia amanhecer quando o fazendeiro colocou em uma carroça o porco gordo, a cabra e o carneiro que havia apartado de véspera, e seguiu com eles em direção à vila, para vendê-los na feira que lá se realizaria naquela manhã.
Ao longo do caminho, a cabra e o carneiro permaneceram quietos no lugar aonde tinham sido amarrados, ao contrário do porco, que lutando sem sucesso contra a corda que mantinha suas patas presas umas às outras, como se fossem uma só, grunhia e roncava cada vez mais alto, desesperado com sua absoluta impotência diante daquela situação. Até que depois de algum tempo a cabra cansou-se da barulheira ensurdecedora que seu companheiro de viagem fazia, e então bradou irritada:
- Por que é que você está gritando tanto assim, “seu” gorducho escandaloso? Seja educado e faça como nós, que viajamos tranqüilos, aproveitando a frescura dessa madrugada que vai chegando ao fim.
- Educado? – respondeu o porco entre uma e outra contorção do corpanzil pesado. – Está me parecendo que vocês não têm juízo na cabeça. Se os dois estão achando que lá na feira eles só vão tirar a lã de um, e esgotar o leite da outra, o problema não é meu. Mas eu sei muito bem que o que está me esperando na vila é o facão do salsicheiro, e é por isso que estou me debatendo dessa forma, pois não me conformo com o que vai acontecer comigo.
Moral da história: O destino é surdo às nossas queixas. Assim, quando o mal é irremediável, sofre em dobro aquele que se revolta contra ele.
Baseado em uma fábula de La Fontaine.