BICHO-DE-PÉ

O bicho-de-pé (Tunga penetrans) é um artrópode pertencente à família das pulgas. De coloração marrom-avermelhada, não tem mais que um milímetro de comprimento, razão pela qual passa praticamente despercebido diante de olhares pouco atentos. E se ganhou o nome popular que o tornou conhecido de todos isso se deve ao fato de que geralmente ele penetra no corpo humano através da sola do pé, ou perfurando a pele sob as unhas do mesmo, ou então procurando acomodar-se nos espaços interdigitais, aqueles que ficam entre os dedos. Mas pode, também, cavar a sua entrada em qualquer outra região corporal de quem passa ao seu alcance, pulando sobre ele para sugar-lhe o sangue com que se alimenta.

 

Muito comum nas zonas rurais do país, o bicho-de-pé, também conhecido como pulga da areia, batata, bicho-de-porco, pulga-penetrante e diversos outros nomes, é uma das infecções cutâneas mais freqüentes no verão, acometendo normalmente quem anda descalço nas áreas infestadas – quase sempre os currais, chiqueiros e praias. Na verdade, essa invasão é praticada apenas pelas fêmeas fecundadas, que se alimentam do sangue do hospedeiro enquanto desenvolvem os ovos de sua próxima postura. Isso provoca algumas reações desagradáveis no cidadão atacado, como forte coceira, inchaços dolorosos localizados ao redor de onde o inseto penetrou, e ulceração no local afetado. O problema quase nunca vai além desse ponto, o que não elimina a possibilidade da pequena infecção evoluir e criar condições para o surgimento de conseqüências mais sérias como o tétano e a gangrena. A coceira é causada por uma substância que o bicho-de-pé usa para furar a pele: quando isso acontece, o sistema de defesa do nosso corpo a reconhece como algo estranho e reage provocando comichão e prurido.

 

O processo reprodutivo do bicho-de-pé é descrito prela revista Ciência Hoje da seguinte forma:

 

“O bicho-de-pé é a fêmea da pulga T. penetrans. Ela entra na pele do hospedeiro quando fecundada e ali põe muitos ovos, o que leva seu abdome a aumentar de tamanho. As lesões que surgem no pé do hospedeiro são, na verdade, parte do abdome do inseto, repleto de ovos, que fica fora da pele. Para penetrar no pé, na mão ou em outra parte do corpo humano (pois é, bicho-de-pé não dá só no pé!), essa pulga libera uma substância que facilita sua entrada na pele. A pessoa pode sentir uma dor semelhante à picada de um inseto, uma coceirinha ou mesmo nada. Na pele, a pulga passa a sugar sangue. Mas não só come! A fêmea do bicho-de-pé também põe ovos, conta a parasitologista Reinalda Marisa Lanfredi, do Laboratório de Helmintos, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como eles são muitos, podendo chegar a mais de 250, seu abdome aumenta de tamanho. A pulga começa a eliminá-los diariamente e, depois disso, morre. Os ovos caem no solo e deles nascem larvas, que após um período no solo tecem casulos, formando o que se chama de pupa, onde se tornam pulgas adultas prontas para o acasalamento. Ao serem fecundadas, as fêmeas buscam um hospedeiro e o ciclo recomeça! Como dá para notar, quem não se livra do bicho-de-pé vira uma maternidade ambulante de pulgas. Além disso, corre o risco de ter uma infecção, pois o buraco feito pelo inseto serve de entrada para bactérias e fungos. No interior, é comum se retirar o bicho-de-pé com canivetes, por exemplo, explica Reinalda Lanfredi. Mas o ideal é procurar um médico. E gostar da coceira não é desculpa para ficar com bicho-de-pé!”.

 

Esse inseto, de coloração marrom avermelhada, pode ser encontrado em praticamente todo o continente americano. Embora os machos da espécie também suguem sangue, apenas as fêmeas fecundadas têm a capacidade de perfurar a pele dos seus hospedeiros, usando a boca para realizar esse trabalho. Uma vez alojadas, elas iniciam a postura, que pode durar até duas semanas, e depois morrem (decorridos uns quinze dias, o corpo da fêmea é expulso pela reação inflamatória da pele). A lesão que provocam tem formato circular, é elevada, de cor amarelada e com um ponto preto central, conforme aparece na ilustração acima.

 

As larvas originadas dos ovos se transformam em insetos adultos que procuram as habitações com piso de terra ou locais sombreados em solos arenosos e praias, onde aguardam a passagem do homem, ou outro animal de sangue quente, como o porco, o cavalo, o cachorro e outros mamíferos, a fim de dar continuidade ao seu ciclo de vida parasitária. 

 

O tratamento padrão para quem se torna hospedeiro do bicho-de-pé consiste na prévia limpeza e assepsia do local afetado, procedendo-se em seguida a remoção completa da pulga com agulha cortante ou bisturi, e terminando com curativos e vacinação contra o tétano, caso ela não tenha sido feita em período anterior ou tenha ultrapassado o seu prazo de imunidade, que é de dez anos. Mas o melhor remédio contra o bicho-de-pé continua sendo a prevenção. Por isso, para que qualquer um possa manter esse incômodo bichinho à distância segura, o procedimento adequado é o uso de calçados e luvas em locais sabidamente infestados, além do tratamento dos animais domésticos infetados. Outra providência que pode ser adotada com bons resultados é a pulverização de inseticidas recomendados nas áreas infestadas.

 

Apesar dos problemas que o bicho-de-pé pode despertar nas pessoas, seu nome é aproveitado para identificar uma guloseima que agrada a todos, um docinho saboroso preparado com 1 lata de leite condensado, 1 caixinha de gelatina sabor morango ou 3 folhas de gelatina vermelha, 1 colher de sopa de manteiga ou margarina sem sal e açúcar refinado. Para prepará-lo basta misturar o leite condensado e a manteiga em uma panela, levá-la ao fogo baixo até ferver, mexendo sempre, e depois colocar o pó da gelatina, continuando a mexer até a massa soltar do fundo da panela. Caso sejam usadas as folhas de gelatina, elas devem ser umedecidas levemente em água fria para hidratar, depois dissolvidas em 2 colheres de sopa de água quente e misturadas ao leite condensado antes de levadas ao fogo. Estando a massa pronta é só deixá-la esfriar e fazer bolinhas com elas, usando as mãos levemente untadas com margarina, passando-as, por fim, no açúcar refinado. Para terminar, coloque os 30 docinhos (rendimento da receita) em fominhas de papel, e deixe sua família servir-se à vontade.