CHICHEN ITZÁ (México)

A expressão maia chich'en itza significa na boca da fonte, ou do manancial de água do povo Itza. Erguida, provavelmente, entre os séculos 4 e 5 da era cristã, esta cidade cerimonial transformou-se em centro social, político e econômico da civilização que ali implantou várias estruturas imponentes. A pirâmide de Kukulcan foi, provavelmente, o último e provavelmente o mais grandioso templo construído por esse povo.

 

A Península de Yucatán, no sudeste do México, mesmo sendo uma chapada caracterizada pela ausência total de rios ou córregos, é rica em água da chuva que se deposita em seu subsolo. Ao fluir para o mar, essa corrente líquida foi diluindo rochas e formando cavidades chamadas grutas, quando secas, ou cenotes, quando inundadas, estas, por sua vez, conectadas a túneis mais profundos. Os três açudes naturais (ou cenotes) existentes em Chichen Itzá, fizeram do local um ótimo lugar para a construção de uma cidade, porque neles a água disponível era, como continua sendo, farta e abundante durante todo o ano. Dois desses mananciais ainda existem; são considerados lugares sagrados pelos maias porque, segundo a tradição, a água que guardam é considerada como "virgem ou pura", porque não foi tocada pela luz.

 

O mais famoso é o Poço do Sacrifício, consagrado a Chaac, o deus da chuva da cultura maia. Neles, cerimônias majestosas eram realizadas regularmente, e os que eram utilizados na prática desses rituais não podiam ser aproveitados para o abastecimento de água à população. Oferendas de jade e cerâmica podiam ser jogadas regularmente nos poços, e segundo a lenda, uma vez ou outra, durante os períodos de seca mais intensa, algumas mulheres jovens e bonitas morriam sacrificadas naquele local para aplacar a contrariedade dos deuses, muito embora não existam provas científicas de que isso de fato aconteceu.

 

A história revela que por volta de 987 um rei tolteca chamado Quetzalcóatl - que de acordo com a tradição se transformaria em Kukulcan, a divina serpente emplumada da cultura maia, chegou ao sítio à frente de um exército, vindo do México, e com a ajuda de aliados locais transformou Chichén Itzá na capital de seus domínios. Os toltecas foram um povo pré-colombiano que dominou grande parte do território central mexicano entre os séculos 10 e 12, mas o aparecimento dos chichimecas, guerreiros bárbaros que deram origem, posteriormente, ao império asteca, redundou no aniquilamento dos ocupantes da histórica cidade, cujos sobreviventes fugiram para outras regiões mexicanas a fim de escaparem da morte.

 

O templo de Kukulcan se trata de uma pirâmide construída em seções, ou andares cada vez menores que vão se sobrepondo até o alto, com seus terraços quadrados e escadarias dispostas nas quatro faces conduzindo ao templo situado no topo. Com 27 metros de altura, o monumento é uma prova do alto conhecimento maia sobre o movimento dos astros: nos equinócios de primavera e outono, em 21 de março e 22 de setembro, a pirâmide recebe milhares de visitantes que se reúnem em frente ao símbolo maia para observar a “vinda à terra” de uma serpente, que desce em forma de sombra ao longo da escadaria conforme, o sol se põe. Os 91 degraus em cada um dos quatro lados, ou 364, no total, somados ao da plataforma superior, que é comum a todos eles, totalizam 365, mesmo número de dias do ano. Além disso, cada uma das faces da pirâmide alinha-se com um dos pontos cardeais, e os 52 painéis esculpidos em suas paredes referem-se aos 52 anos do ciclo de destruição e reconstrução do mundo, segundo ensina a tradição maia. Grandes esculturas, representando serpentes emplumadas, guarnecem a escadaria Norte, as quais, devido à forma como suas sombras se projetam, parecem mover-se durante os equinócios da primavera e do outono. 

 

Chichén Itzá também abriga outros monumentos, como o Templo dos Guerreiros, o Observatório Caracol (na ilustração acima), o Cenote Sagrado, o Templo das Mil Colunas e o Jogo de Pelota, um grande pátio descoberto que no passado era usado para a prática de um jogo denominado pok ta pok, modalidade esportiva que os pesquisadores supõem ter consistido no arremesso de uma bola em direção a um anel fixado numa parede a sete metros de altura (assim como no basquete da atualidade). A diferença é que, naquela época, o capitão do time que primeiramente acertasse o alvo era imediatamente decapitado pelos sacerdotes em sacrifício aos deuses, cerimônia a que a vítima, diga-se de passagem, se entregava com a maior boa vontade, porque acreditava piamente em que assim procedendo, subiria imediatamente ao paraíso para desfrutar da felicidade celeste ao lado das divindades que adorara em sua passagem terrena.

 

Chichén Itzá começou a entrar em decadência quando por volta do ano de 1150 o controle político da península de Yucatán se deslocou para Mayapan, um novo assentamento.  Mais adiante, em 1221, uma rebelião popular eclodiu na sociedade maia, e os telhados de madeira do mercado e do Templo dos Guerreiros foram incendiados. Anos depois, por volta de 1250, o complexo de Chichén Itzá já estava completamente abandonado, e por razões ainda não esclarecidas pelos pesquisadores.

 

A região arqueológica de Chichen Itzá é visitada todos os anos por cerca de 1,2 milhão de pessoas, mas ao contrário das pirâmides astecas da Cidade do México, a de Kukulkán não pode mais ser escalada por turistas. Em 7 de julho de 2007 o monumento foi eleito pela New7Wonders como uma das novas Sete Maravilhas do Mundo, e embora a campanha não tenha sido oficializada pela UNESCO, o Chichén Itzá pode ser considerado uma das maravilhas do mundo moderno.