CRISTO REDENTOR (Brasil)

Em janeiro de 1502, o navegador italiano Américo Vespúcio, a serviço do rei de Portugal, chegou à baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, em missão de reconhecimento. Logo depois ele prosseguiu para o Sul, provavelmente chegou à Patagônia, e retornou a Lisboa em julho do mesmo ano, encerrando a viagem considerada como uma das mais importantes na história das descobertas geográficas porque foi graças a ela que os cartógrafos de então reconheceram que as novas terras não pertenciam à Ásia, mas sim a um novo mundo. Durante o tempo em que permaneceu na baía, Vespúcio encantou-se com uma elevação que dominava a enseada à esquerda do canal de entrada, e por isso deu a ela o nome de “Pináculo da Tentação”, alusão à passagem bíblica do Novo Testamento em que o demônio tentou Cristo com os pecados do mundo. Porém, tal denominação não agradou aos portugueses, que rebatizaram o morro como Corcovado devido à corcova posterior que ele possui. 

 

Bem mais adiante, já no século 19, o acesso ao alto do morro era percorrido por muitos, entre eles o príncipe D. Pedro, que o escalara em 1822 deixando seu monograma gravado em uma árvore. Anos depois, em 1859, o padre francês Pierre Marie Bos, em missão religiosa no Brasil, sugeriu que o morro do Corcovado servisse como pedestal para uma estátua de Jesus Cristo, e para concretizar essa idéia solicitou do governo os recursos necessários, o que lhe foi negado. Em conseqüência, o projeto do religioso ficou esquecido até 1882, quando os engenheiros Francisco Pereira Passos (1836-1913) - nomeado posteriormente (1902), prefeito do Rio de Janeiro -, e João Teixeira Soares (1848-1927) – projetista (1887) da Ferrovia do Contestado, com 1.403km de extensão, ligando a província de São Paulo à do Rio Grande do Sul -, conseguiram a concessão para construir um ramal ferroviário do bairro do Cosme Velho ao alto do Corcovado, sob o sistema Riggenbach (que consiste em um 3º trilho central dentado, semelhante a uma escada sem fim), para dar maior segurança à composição.

 

Os relatos a respeito dessa pequena linha férrea dizem que “inaugurada em outubro de 1884, logo se tornou a grande atração da cidade, sendo a primeira ferrovia turística das Américas. Com extensão de 3.775m, uma locomotiva a vapor conduzia os dois vagões até o topo. No meio do caminho, nas Paineiras, foi construído um hotel turístico, e no cume, a 704m de altitude, um mirante de ferro logo batizado como Chapéu de Sol. Em 1910, a eletrificação desta ferrovia foi a primeira experiência do gênero no país”.

 

Em 1889, com o advento da República, a proposta do padre Pierre Bos parecia ter sido definitivamente esquecida, mas ressurgiu timidamente em 1912, quando da inauguração da Companhia Caminho Aéreo do Pão de Açúcar, que colocara em funcionamento um bondinho transportando passageiros da Praia Vermelha ao Pão de Açúcar, com escala no morro da Urca. O resultado foi que em 1918 tornaram-se mais fortes os comentários favoráveis à colocação de uma imagem de Cristo no antigo morro de Santo Antônio (largo da Carioca), como parte das comemorações ao centenário da independência do Brasil. Simpático a essa idéia, o presidente Epitácio Pessoa acabou optando pelo Corcovado, entregando à Arquidiocese do Rio de Janeiro a responsabilidade por sua concretização, transferindo o pico para o domínio da entidade religiosa (1920), além de se comprometer a colaborar com ela através da concessão de uma série de subsídios.


Criou-se, então, um concurso público de projetos no qual foi escolhido o do arquiteto Heitor da Silva Costa: um Cristo carregando uma cruz. No entanto, problemas financeiros atra-saram o início das obras, e em 1922, quando o governo instalou no alto do morro a primeira antena de rádio do país, destinada a experiências com radiofonia durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, Silva Costa observou o seu formato em cruz e percebeu que o Cristo que planejara se tornaria bem mais visível à distância caso obedecesse ao mesmo modelo. E alterou o projeto que havia feito.


Aprovados os desenhos preliminares, pensou-se em utilizar o bronze para a confecção da imagem, mas o conhecimento do que ocorrera na Rússia, quando a revolução comunista acarretou a fundição de todas as imagens de santos para reaproveitamento do material, determinou a utilização do concreto armado como matéria prima da obra. Em 1923 os planos do monumento foram enviados a Victor Caquot, na Europa, um engenheiro especializado em estruturas de grande porte, cujos cálculos deram à estátua resistência a ventos de até 250km/h. O escultor francês Paul Landowski encarregou-se da confecção do rosto e mãos da imagem, utilizando como modelo para estas as da artista plástica Margarida Lopes de Almeida, considerada como dona das mais belas mãos do Brasil.  O dinheiro para a obra foi conseguido através de doações voluntárias coletadas durante dez anos em todo o território nacional: cada brasileiro podia contribuir com mil réis, quantia que permitia a ricos e pobres participarem do movimento, arrecadando-se, ao final, um montante mais que suficiente para a realização de todos os trabalhos.


Em 12 de outubro de 1931, dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, a imagem do Cristo Redentor foi finalmente inaugurada em solenidade que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas, ministros, autoridades civis e militares, representantes do Papa e o cardeal-arcebispo D. Sebastião Leme. Relatam os jornais da época que “na mesma noite foi inaugurada a iluminação. Para tal foi montado no Corcovado um aparatoso equipamento de rádio, pois o inventor Giglielmo Marconi ofereceu-se para ligar as luzes acionando uma chave em Gênova, na Itália, onde se encontrava. Na hora aprazada, o equipamento falhou, e a iluminação da estátua foi acionada por um suboficial do exército, o futuro escritor católico Gustavo Corção”.

 

Com 30,03m metros de altura, mais 8m da base, 29,60m de envergadura (o braço esquerdo é menor que o direito cerca de 40cm, para dar maior estabilidade à imagem), cabeça inclinada 33cm para frente, o monumento tornou-se símbolo não só da cidade do Rio de Janeiro, mas também do Brasil. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) em 1937, ele foi reformado em 1980 e 1990, ganhando em 2003 um sistema de escadas rolantes e elevadores que facilitam o acesso à plataforma de onde se eleva a estátua. Em 12 de outubro de 2006, dia em que completou 75 anos, o Cristo Redentor foi transformado em santuário católico do Brasil, e em 7 de julho de 2007, em Lisboa, no Estádio da Luz, tornou-se uma das novas sete maravilhas do mundo. Além de ser um expressivo símbolo da cristandade, o monumento, com seus braços abertos, tornou-se um emblema da internacionalmente reconhecida hospitalidade brasileira.